o sol brilha e faz brilhar

O sol brilha e faz brilhar. Transforma, aquece e derrete. E os meus olhos brilham, abrem-se de emoção quando vejo e deixo-me encantar por coisas lindas. Sim, emocionam as palavras, os gestos e os fazeres nobres da vida, os grandes caracteres, os corações de manteiga que nos tocam…

Choro de emoção com o abraço de uma amiga, com a alma pura que ainda conserva apesar das marcas do tempo, apesar de chacina do mundo em que vivemos. Como resistem estas almas, como podem elas manter-se de coração aberto?

Choro de tristeza quando perco uma amiga, quando a vejo soltar-se da minha mão porque busca outras verdades, outros caminhos onde eu nunca poderei fazer sentido. Choro porque a vejo perdida, a caminhar com rumo falso e escuro. Sei que ela vai cair mas sei também que nada do que possa fazer a vai fazer acreditar em mim ou diminuir a minha mágoa. A dor da perda.

Choro de alegria agarrada aos meus sobrinhos, mimada pelos seus beijos e abraços, da mais bela pureza. O amor lá do fundo, sem interesses, sem ratoeiras, está naqueles olhos grandes e límpidos e nos sorrisos que derrubam qualquer desencanto.

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são as ruas em paralelo, passeios sujos, gatos vadios que se escondem debaixo dos carros, gaivotas à procura de comida e muitas pombas. O Porto da minha memória nunca vai ser um Porto feliz, cheio de vida e cor. O Porto que me fica é um Porto esquecido, velho, que quer acreditar mas já não tem forças para isso… Sim, há casas lindas, restauradas ou mesmo novas, lugares fabulosos, cafés, lojas super modernas e cosmopolitas… mas lado a lado com a senhora que vende jornais e não fala de outra coisa senão da crise e do passado que era bom, dos velhos enrugados, curvados, abandonados que se arrastam amargurados nas ruas e vivem debaixo de tectos a cair de podres, com uma reforma miserável…

O Porto que se quer novo não consegue livrar-se do peso, um peso que vem de trás, de séculos de história, de lutas muita vezes inglórias, um peso de quem não acredita que valha a pena. Por mais que as ruas da Galeria de Paris soltem gargalhadas, pulem de alegria e gritem de garra e juventude, não conseguem esconder a tristeza do rosto das suas gentes, a falta de sorrisos lindos e olhares de esperança.

Confesso que me apaixonei pelo Porto à primeira vista… e há mais de 5 anos que dura este amor que certamente vai ser eterno. E fui descobrindo que o sorriso triste não era do momento mas sim da alma. Venham as gaivotas chorar no Douro, as pombas pedir migalhas nos Aliados, os clientes mexer Santa Catarina e os artistas levantar Miguel Bombarda, que o Porto das gentes amarguradas há-de, um dia, soltar-se das suas amarras!

um dia especial

Todos os anos, repete-se o gesto, o bolo, as velas e os parabéns. Sempre com a ansiedade de que é um dia especial, diferente dos outros e que os outros, pessoas, lembram-se de mim. O aniversário vai ao fundo das nossas carências. Como desejamos ouvir Parabéns e receber votos de Felicidades. E depois a canção dos Parabéns a Você que é para mim e só para mim!

Vem lá do fundo essa necessidade de receber atenção. De querer à minha volta os amigos e familiares, de querer tanto esse mimo! A emoção, o sentir que nos amam e nos querem bem. Ter a certeza disso, mesmo que nos maus momentos não possam estar presentes ou não sejam capazes. Amam e isso não dá para negar. Como eu me amo e amo os meus e se calhar os dos outros.

Não é treta. O amor é mesmo o melhor, o mais importante, aquilo que realmente vale a pena. Quando escorrega das nossas mãos porque não consegue segurar a dor. Ou foge demasiado rápido quando estamos distraídos. Ou não o vemos. Ou procuramos lá longe o que está tão perto. Cada um ama à sua maneira. Nós não amámos à maneira dos outros. Nem sequer como queremos. E vamos aprendendo a segurar esse amor que nos preenche os vazios da alma, que sara as dores das desilusões e nos move a enfrentar as dificuldades.

Nasci tão bem num dia de calor intenso, cheia de fome e com uma enorme vontade de viver. Como hoje e como sempre. Juntos dos que não deixaram o amor escorregar das minhas mãos.

tem olhos nas penas

Ele solta as penas e mostra os olhos pendurados nas penas. Sabe que todos os admiram e se deslumbram pela sua beleza. Vale a pena passar no Palácio de Cristal só para ver estar criaturas a abrir a sua cauda, a caminhar ao nosso lado sem pressa.

Vale a pena deixar de pensar no tempo e olhar apenas, sentir a vibração daquela beleza, o brilho daquelas penas, a energia daquelas cores…

Meu Deus, sou ainda tão nova!

“eu sei que é uma questão de dias, de horas, que não escapo mas, Meus Deus, sou tão nova para morrer!”

E era nova, pouco mais de quarenta tinha e os últimos anos já não eram vida, eram aquela sobrevivência aos tratamentos, o rosto sem cor, as dores, a falta de forças… há muito que já não era da vida, mesmo assim queria ficar, mesmo com aquele sofrimento atroz não queria ficar longe dos filhos, do marido, da família e dos amigos que sempre estiveram perto dela. Por eles lutava, por eles acreditava e sonhava. Até ontem… até que ontem a morte veio buscá-la.

“Sou ainda tão nova, Meu Deus!”

Era nova, linda e generosa. Como era possível ser assim arrancada da vida, da família feliz que construíra, do mundo que a apoiara…

Hoje todos a choram… todos querem prestar-lhe a homenagem merecida e despedir-se, mas não para sempre. Porque no coração de todos nós ela ficará para sempre.

Amantes, felizes amantes

Os amantes são evidentes, mas ninguém repara neles. Amantes, felizes amantes, ide viajar, nem que seja nos rios próximos, sede um para o outro um mundo sempre belo, sempre diverso, sempre novo, substituí tudo o que é preciso, desprezai o resto. E mil outros refrões do mesmo género semeados no vento através das tempestades do tempo. Vês todas estas personagens com os seus fatos? Vão estar nus de um momento para o outro, conceder-se tanto prazer e ternura quanto puderem, navegar à vista, sempre alerta, evitar os escolhos, lançar a âncora, voltar a partir de mansinho.

Philippe Sollers, in “A Estrela dos Amantes”

O Monge Negro – Anton Tchekhov

O segredo de tudo está no amor, nos olhos atentos do dono, nas mãos do dono, na sensação que experimento, quando vou dar um passeio ou visito alguém durante meia hora, de que deixei o coração para trás e não estou em mim…

Sabia por experiência que, quando os nervos fraquejam, o melhor remédio é o trabalho. Costumava então sentar-se à mesa e concentrar-se num pensamento definido. Retirou da pasta vermelha um caderno que continha o resumo de um pequeno trabalho que tencionava realizar durante aquela estada na Crimeia, se acaso se fartasse da inactividade. Sentou-se à mesa  pôs-se a trabalhar nesse resumo. Afigurou-se-lhe estar a assumir de novo a sua antiga personalidade calma, resignada, objectiva. Aquele sumário levou-o a especular sobre a vaidade do mundo. Pensou no alto preço que ela exige em troca dos benefícios mais mesquinhos e vulgares concedidos ao homem. Para reger uma cadeira de filosofia antes dos quarenta anos; para ser um vulgar professor; para expor pensamentos comuns, pensamentos estes que já não eram seus,numa linguagem fraca, pesada e cansativa; numa palavra, para atingir a posição de um medíocre letrado, estudara durante quinze anos, trabalhara noite e dia, sofrera uma doença grave, fizera um casamento desastrado, tornara-se culpado de muitas loucuras e injustiças cuja recordação se tornava para ele uma tortura. Kovrin convencia-se agora completamente de que não passava de um medíocre e não conseguia conformar-se com esse facto, sabendo perfeitamente que todos o homem se deve dar por satisfeito com aquilo que é”.

Anton Tchekhov

Um Caso Médico – Anton Tchekhov

Mas o médico não sabia por onde começar. Como havia de ser? É difícil perguntar aos condenados por que razão os condenaram; e é também aborrecido perguntar aos ricos por que motivos têm necessidade de tanto dinheiro; porque fazem tão mau uso da sua riqueza, porque não a deixam, mesmo quando vêem que aí reside a sua infelicidade… E se se começa a falar disso, a conversação é geralmente embaraçada e longa”.

Anton Tchekhov

A Minha Mulher – Anton Tchekhov

Era inevitável! Não havia em todo o distrito – disso tinha a certeza – mais ninguém capaz de os socorrer senão eu. A mim cumpria-me, pois, fazê-lo. Estava rodeado de pessoas sem instrução, pouco inteligentes, indiferentes, na maioria dente desonesta, ou honesta mas irreflectida, duma leviandade infantil, como era, por exemplo, a minha mulher. Não se podia contar com semelhante gente para nada, mas também não se podiam abandonar os camponeses à sua triste sorte.

– A revolta alastra entre eles – recomeçou Ivan Ivanitch, chupando uma casca de limão. – Os famintos revoltam-se contra os que têm de comer… E estes irritam-se com os famintos… Sim… Não é este o momento para nos zangarmos, mas para sermos indulgentes. A fome é má conselheira, enloquece os homens, torna-os ferozes, selvagens. A fome não é algo irrisório. Quando voltamos a casa com fome, depois de uma boa caçada, somos capazes de ser insolentes até com a própria mãe… Sim… Um faminto torna-se insolente e rouba; a até pode vir a fazer coisas piores… é necessário que isto se compreenda”.

Anton Tchekhov

Do Amor e Outros Demónios

Conversavam até ao amanhecer, sem ilusões nem mágoas, como um velho casal condenado à rotina. Julgavam ser felizes, e talvez o fossem, até que um dos dois dizia uma palavra a mais ou dava um passo a menos, e a noite estragava-se numa luta de vândalos que desnorteava os mastins”.

Gabriel Garcia Marquez