De que vale ser criança?

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Carregas em ti o peso do mundo

E ainda és uma criança.

Tudo te negam, tudo te arrancam.

Direitos nunca tiveste, mandam os deveres

Como uma espinhosa herança.

 

Cuidas dos teus irmãos,

De dia só a ti te têm,

E como mãe te procuram.

Com eles vais para escola,

Por um futuro menos negro.

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Dizes não ter sonhos

E ainda és uma criança.

Vazio e sem brilho é o teu olhar.

Há muito que se foi a esperança,

Sobrevives sem nada almejar.

 

Pai não tens e mãe não sentes,

Cravada está no escravo emprego,

Para migalhas vos arranjar,

Pois sem pão não há sossego,

Num dia de cada vez…

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Vives como uma condenada

E ainda és uma criança.

No futuro não acreditas,

Com as mãos o agora levantas,

De infância negada.

 

Varres a poeira do barraco,

Onde a chuva cai e o frio entra.

Estendes no chão os farrapos,

Ondes enrolados deitais,

Para dormir e tentar sonhar.

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Doem-te os sonhos dos outros,

Porque não te deixaram ser criança.

Para ti só há o triste ser de agora,

Que para beber e lavar à fonte vai,

E na cabeça a água carrega no balde.

 

Já não queres saber o porquê

Da rejeição a ti e aos teus.

Só queres acordar a respirar,

Para dos teus manos tratar,

Num dia de cada vez…

 

A dignidade das mulheres

FRIEDRICH SCHILLER andou por cá há mais de duzentos anos. Parece-nos antigo, todavia conseguia ver além do seu tempo… Gosto particularmente deste verso (embora admita outras verdades): “[mulheres] Mais propensas que o homem à sabedoria”.

A versão completa:

“Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem

Rosas sublimes na vida terrena,

Entrançam do amor o venturoso laço

E, através do véu casto das Graças,

Alimentam, vigilantes, o fogo eterno

De sentimentos mais belos, com mão sagrada.

 

Nos limites eternos da Verdade, o homem

Vagueia sem cessar, na sua rebeldia,

Impelido por pensamentos inquietos,

Precipita-se no oceano da sua fantasia.

Com avidez agarra o longe,

Seu coração jamais conhece a calma,

Incessante, em estrelas distantes,

Busca a imagem do seu sonho.

 

Mas, com olhares de encanto e fascínio,

As mulheres chamam a si o fugitivo,

Trazendo-o a mais avisados caminhos.

Na mais modesta cabana materna

Foram deixadas, com modos mais brandos,

As filhas fiéis da Natureza piedosa.

 

Adverso é o esforço do homem,

Com força desmesurada,

Sem paragem nem descanso,

Atravessa o rebelde a sua vida.

Logo destrói tudo o que alcança;

Jamais termina o seu desejo de luta.

Jamais, como cabeça da Hidra,

Eternamente cai e se renova.

 

Mas, felizes, entre mais calmos rumores,

Irrompem as mulheres, num instante de flores,

Propiciando zelo e cuidadoso amor,

Mais livres, no seu concertado agir,

Mais propensas que o homem à sabedoria

E ao círculo infindável da poesia.

 

Severo, orgulhoso, autárcico,

O peito frio do homem não conhece

Efusivo coração que a outro se ajuste,

Nem o amor, deleite dos deuses,

Das almas desconhece a permuta,

Às lágrimas não se entrega nunca,

A própria luta pela vida tempera

Com mais rudeza ainda a sua força.

 

Mas, como que tocada ao de leve pelo Zéfiro,

Célere, a harpa eólica estremece,

Tal é a alma sensível da mulher.

Com angustiada ternura, perante o sofrimento,

O seu seio amoroso vibra, nos seus olhos

Brilham pérolas de orvalho sublime.

 

Nos reinos do poder masculino,

Vence, por direito, a força,

Pela espada se impõe o cita

E escravo se torna o persa,

Esgrimem-se entre si, em fúria,

Ambições selvagens, rudes,

E a voz rouca de Éris domina,

Quando a Cárite se põe em fuga.

 

Porém, com modos brandos e persuasivos,

As mulheres conduzem o ceptro dos costumes,

Acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,

Às forças hostis que se odeiam

Ensinam a maneira de ser harmoniosa,

E reúnem o que no eterno se derrama.”

 

Friedrich Schiller