aquele espelho da alma

2012-06-29 21.24.40

Não eram as palavras nem os gestos, eram os olhos, aquele olhar que fere, que pede satisfações, que chora e suplica. As crianças são puras e  autênticas como os animais. As palavras podem não dizer muito, os gestos podem ser inseguros mas o olhar não mente, diz o que nem mesmo elas sabem que está lá dentro.

Deus pode abdicar das palavras, mas não abdicou do espelho da alma, do olhar, o sentir que controla o saber e o conhecer. Vem antes de tudo e é o último a ir-se embora – o sentir, a emoção…

Podes dizer que não, que não queres, que não ligas nem queres saber. Podes negar sempre e com a maior das convicções. Podes dizer que controlas tudo e que nada te faz vacilar. O teu corpo pode-te obedecer na verdade que queres dar a conhecer, mas os olhos não. Eles não te deixam mentir por inteiro. Eles impedem a verdade que criaste e queres que os outros acreditem. Os olhos não te obedecem, não alinham nos teus planos. Mesmo que queiras esconder a raiva ou disfarçar a dor. Mesmo que te sintas forte e nada quebre o teu orgulho. Os olhos estão e só um cedo não os vê, um cedo de almas, um cego como tu que quer ver mas não quer ser visto.

O que o Natal pode fazer a mais é apenas isso: pedir às pessoas que abram os olhos, sem medo de serem apanhadas na verdade verdadeira, na emoção lá do fundo.

Meu Deus, sou ainda tão nova!

“eu sei que é uma questão de dias, de horas, que não escapo mas, Meus Deus, sou tão nova para morrer!”

E era nova, pouco mais de quarenta tinha e os últimos anos já não eram vida, eram aquela sobrevivência aos tratamentos, o rosto sem cor, as dores, a falta de forças… há muito que já não era da vida, mesmo assim queria ficar, mesmo com aquele sofrimento atroz não queria ficar longe dos filhos, do marido, da família e dos amigos que sempre estiveram perto dela. Por eles lutava, por eles acreditava e sonhava. Até ontem… até que ontem a morte veio buscá-la.

“Sou ainda tão nova, Meu Deus!”

Era nova, linda e generosa. Como era possível ser assim arrancada da vida, da família feliz que construíra, do mundo que a apoiara…

Hoje todos a choram… todos querem prestar-lhe a homenagem merecida e despedir-se, mas não para sempre. Porque no coração de todos nós ela ficará para sempre.