Uns chegam, outros vão

 

O dia estava lindo, mesmo sendo Inverno. E que Inverno este, tão duro, frio, chuvoso, feio. Mas naquele domingo foi diferente. O sol brilhou e aqueceu, a embora a noite continuasse gelada.

Nunca gostei do Inverno. Os dias tristes e feios, como hoje. Então este Porto cinzento fica escuro, pesado. Parece carregado de memórias sofridas, de histórias cheias de dor, mas que resistiram, ficaram marcadas nos edifícios, na paisagem, com a beleza da nostalgia.

Começo também a ter um passado, a conhecer as pessoas que vão morrendo, a perceber que há cicatrizes que não desaparecem e que podem abrir a qualquer momento. A tomar consciência que isto acaba um dia, não é para sempre…

Que esta é uma vida de perdas, o que se ganha acaba por se perder, nem que seja nas memórias, na saudade. Tudo vai embora, como na ceia de Natal, chega uma hora em que com ou sem despedidas, o momento acaba e as pessoas vão embora, às vezes para sempre. Ficam as saudades, o coração apertado, um vazio, um pedaço a menos.

Chegam outras pessoas que, mais tarde ou mais cedo, também vão embora. Passamos a vida a dizer Olá e Adeus.

Também me fui perdendo. Também fui embora de muitas pessoas, algumas das quais sem saudades. Também me deixei em vários pontos do passado. O EU da infância, da adolescência, da primeira juventude, da segunda… Também me fui despedindo de mim, deixei na minha aldeia um EU e no sótão da casa dos meus pais outro EU e na primeira Faculdade, outro EU. E foram chegando outros EUs… Quantas mais despedidas? Vou ficar a chorar por mim, a lamentar a minha perda, a sofrer de remorsos por não me ter tratado melhor, por não me ter dado tudo o que eu merecia, todo o amor e atenção que poderiam evitar essa perda, essa morte…

Gansolino e Gansolina

A foto foi tirada no Inverno, num dia de chuva. O Gansolino e a Gansolina viviam sozinhos numa grande gaiola. Hoje é Verão, apesar de ontem ter chovido. Mas o casal Gansolínico já não vive só, nem se deu ao luxo da procriação. Vivem agora com um galo, que mais tarde mostrarei numa nova foto.

Nem os animais devem gostar de solidão…