Ainda bem que tudo era incomparável

Cheguei à Escola Superior de Educação de Santarém como veterana, já com 37 anos, uma licenciatura e alguma experiência no mercado de trabalho precário. Em comum com a minha anterior experiência universitária apenas o facto de ambas acontecerem no âmbito do ensino superior. O resto, ou seja, quase tudo, era incomparável (Braga e Santarém), a começar por mim mesma, quase vinte anos mais velha do que as minhas novas colegas, ao passo que da primeira vez estávamos todas no mesmo barco.

Não se podem comparar diferentes gerações, mas podemos aprender tanto umas com as outras, apesar de todos os desafios. Aprendi isso mesmo – a respeitar essas diferenças que no início chocaram-me e foram difíceis de digerir. Talvez por isso fizesse todo o sentido estar ali durante estes últimos três anos com miúdas como colegas que vi a crescer, a desabrochar talentos, a tornarem-se mulheres.

Penso que ao fim do primeiro ano desisti de fazer comparações e percebi finalmente que tudo era incomparável. E quando isso aconteceu pude, finalmente, aproveitar cada momento e ser feliz. Sim, fui feliz, ri muito, tanto nas aulas online como nas presenciais. Estudar sem constrangimentos, sem medo do que possam pensar, sem inseguranças (estamos aqui para aprender), mas com aquele friozinho na barriga nas apresentações dos trabalhos, nos testes, em todas as avaliações…

Tanta coisa que levo comigo e tão grata que estou por estes três anos de desafios superados. Não mudaram a minha vida, não mudaram assim tanto a minha bagagem, mas ensinaram-me a ser uma pessoa melhor, mais atenta aos outros, mais empática, não a aceitar mas a admirar a diferença. E é essa diferença que torna tudo (pessoas, mundo, vida… ) tão especial!

Só tenho a agradecer e esperar que os próximos dois anos em Lisboa sejam, no mínimo, tão bons como estes últimos três em Santarém. Obrigada!

Não temas. Estás contigo.

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Sonhava, abria os olhos e voltava a sonhar. A realidade era fria, pesada, amarga. Criar uma ilusão, uma vida imaginária para fugir do que via, sobretudo do que sentia. Mas a sombra da realidade era mais forte do que a luz frágil da fantasia. Abrir os olhos e ver a sombra, olhá-la nos olhos. Aterrador. Ou vives o que és ou não vives, apenas finges e a acabas por ser profundamente infeliz, sem saber já o que és, muito menos o que queres.

Não há receitas, todos os conselhos parecem certos e errados. Ninguém te conhece, nem tu mesmo. Até que decides ouvir-te, conhecer-te, descobrir o que está para além dessa sombra que de apaga, que te consome. Dói. Mesmo muito. Dói saber que não és o que achavas que eras, que não és o que tentaste ser, que as tuas qualidades não são aquelas que os outros elogiam e aquelas que deves ter parecem-te estranhas, não se enquadram nessa imagem que criaste inconscientemente. Dói não quereres mais isto nem aquilo. Não quereres mais estar com esta ou com aquelas pessoa. Dói não te reconheceres. Dói perceberes que tens de começar do zero, que tens de mexer nas entranhas para te encontrares. Dói sentires que as pessoas também não te reconhecem e que não se preocuparam em te procurar lá no fundo porque a superfície era-lhes agradável.

Na bagagem que fazes, acabas por deixas muita coisa para trás, coisas que antes te eram insubstituíveis e agora nada te dizem. Depois vem o medo. Medo do que vai ser, medo do que vais encontrar dentro e ti como vais gerir isso tudo, como vais deixar fluir esse eu.

Porém, o medo não faz parte do teu eu. Assim como outras tantas coisas. Não entram nos teus ouvidos o que os outros dizem, não te ferem as críticas destrutivas, não te vergas perante os obstáculos. Descobres que és mais forte do que a superfície que eras e não te deixas esmagar pela sombra, porque ela não te incomoda, apenas te alerta quando te desleixas.

Não sabes para onde vais nem te importas com isso. De que vale o que vem se te tens a ti, se ganhaste a certeza de que nunca te vais abandonar porque tu és o mais importante, a única coisa que te pode fazer verdadeiramente feliz.

E nesse apaixonar por ti mesmo, entendes que o sol está sempre lá, que as nuvens servem para animar o céu e dar-lhe movimento. Que sem chuva não haveria arco-íris nem abraços molhados. Que a natureza ganham cores diferentes a cada minuto e em cada verde há milhares de tonalidades. Percebes que os animais falam com os olhos e as pessoas fazem-se entender pelo toque e pelas expressões que tentam esconder. Perdes-te a admirar a vida, o mundo e as pessoas. Não temas. Estás contigo.

E depois?… A realidade supera todos os sonhos e o amor acontece.

Afinal era em cima que estava

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Aprendi a olhar para a frente, sem verificar o que ficou para trás, às vezes olhava para os lados mas achava que não eram para mim, a frente era o caminho. Só assim conseguia seguir. Pensar na luz que me acordava e na noite que me obrigava a descansar. Dia após dia. Por dentro, trazia entravadas as mágoas, as desilusões, o mundo largado no passado e marcado com muitas feridas. Não queria ficar lá atrás, a remoer, a pensar no que foi e no que poderia ter sido. O passado vive das recordações. Se não são boas que mais podemos guardar. Sim, claro, a aprendizagem, as lições, a maturidade. É preciso sofrer para crescer, dizem. Também é preciso ter o coração limpo para se ser feliz e demasiada dor só nos escurece.

Arrastava o passado como uma sina, a prova de tudo é difícil, a cruz que temos de carregar, dizem. Muitas coisas se dizem e também se diz que cada um é que sabe da sua vida. Mas não sabemos. Sentimos, tentamos pensar mas sabemos muito pouco. Desconhecemos se é melhor virar para a esquerda ou para direita, temos dúvidas, somos complexos, achamos que temos de ser felizes com isto ou aquilo e muitas vezes acreditamos que o somos. Quantas vezes queremos coisas incompatíveis, diferentes, opostas. Não sabemos. Fazemos escolhas erradas, não tomamos as decisões certas. Vamos aprendendo alguma coisa pelo caminho.

Foi a olhar para os lados e também para trás e para frente, e para baixo para não perder o rumo dos pés, que me dei conta do que estava em cima. Olhei e vi e senti e tantas outras coisas. Afinal era em cima que estava… Não sei explicar, não sei exatamente o quê. Sei apenas sentir. E é muito muito bom! Se puder tocar, mexer, posso dizer, é ela, a felicidade…

um dia especial

Todos os anos, repete-se o gesto, o bolo, as velas e os parabéns. Sempre com a ansiedade de que é um dia especial, diferente dos outros e que os outros, pessoas, lembram-se de mim. O aniversário vai ao fundo das nossas carências. Como desejamos ouvir Parabéns e receber votos de Felicidades. E depois a canção dos Parabéns a Você que é para mim e só para mim!

Vem lá do fundo essa necessidade de receber atenção. De querer à minha volta os amigos e familiares, de querer tanto esse mimo! A emoção, o sentir que nos amam e nos querem bem. Ter a certeza disso, mesmo que nos maus momentos não possam estar presentes ou não sejam capazes. Amam e isso não dá para negar. Como eu me amo e amo os meus e se calhar os dos outros.

Não é treta. O amor é mesmo o melhor, o mais importante, aquilo que realmente vale a pena. Quando escorrega das nossas mãos porque não consegue segurar a dor. Ou foge demasiado rápido quando estamos distraídos. Ou não o vemos. Ou procuramos lá longe o que está tão perto. Cada um ama à sua maneira. Nós não amámos à maneira dos outros. Nem sequer como queremos. E vamos aprendendo a segurar esse amor que nos preenche os vazios da alma, que sara as dores das desilusões e nos move a enfrentar as dificuldades.

Nasci tão bem num dia de calor intenso, cheia de fome e com uma enorme vontade de viver. Como hoje e como sempre. Juntos dos que não deixaram o amor escorregar das minhas mãos.

Uns chegam, outros vão

 

O dia estava lindo, mesmo sendo Inverno. E que Inverno este, tão duro, frio, chuvoso, feio. Mas naquele domingo foi diferente. O sol brilhou e aqueceu, a embora a noite continuasse gelada.

Nunca gostei do Inverno. Os dias tristes e feios, como hoje. Então este Porto cinzento fica escuro, pesado. Parece carregado de memórias sofridas, de histórias cheias de dor, mas que resistiram, ficaram marcadas nos edifícios, na paisagem, com a beleza da nostalgia.

Começo também a ter um passado, a conhecer as pessoas que vão morrendo, a perceber que há cicatrizes que não desaparecem e que podem abrir a qualquer momento. A tomar consciência que isto acaba um dia, não é para sempre…

Que esta é uma vida de perdas, o que se ganha acaba por se perder, nem que seja nas memórias, na saudade. Tudo vai embora, como na ceia de Natal, chega uma hora em que com ou sem despedidas, o momento acaba e as pessoas vão embora, às vezes para sempre. Ficam as saudades, o coração apertado, um vazio, um pedaço a menos.

Chegam outras pessoas que, mais tarde ou mais cedo, também vão embora. Passamos a vida a dizer Olá e Adeus.

Também me fui perdendo. Também fui embora de muitas pessoas, algumas das quais sem saudades. Também me deixei em vários pontos do passado. O EU da infância, da adolescência, da primeira juventude, da segunda… Também me fui despedindo de mim, deixei na minha aldeia um EU e no sótão da casa dos meus pais outro EU e na primeira Faculdade, outro EU. E foram chegando outros EUs… Quantas mais despedidas? Vou ficar a chorar por mim, a lamentar a minha perda, a sofrer de remorsos por não me ter tratado melhor, por não me ter dado tudo o que eu merecia, todo o amor e atenção que poderiam evitar essa perda, essa morte…

a sombra triste

Vês-me chorar tantas vezes e tanta vezes me recrimino por suportares silencioso as minhas lágrimas. É a tristeza que nasceu e cresceu comigo. É a minha sombra que me segue para todo o lado mas só se vê quando caem as lágrimas. Triste se sou tão feliz. Triste se nunca me senti tão bem, feliz,contente, realizada. Cada sonho traz a esperança de livrar dessa sombra, mas depressa carrega-lhe mais amarras.

Seguro na tua mão como se ela fosse suficiente para me salvar. Sinto no teu abraço a força da felicidade, do amor, dos meus sonhos realizados. Vejo nos teus olhos a luz, a confiança, o tudo vai correr bem.

Enquanto dormes, faço um chá e vou para a janela pensar. Pensar porque nasci triste se sorrio tanto, se faço do optimismo um princípio de vida. Se me sinto perseguida pela sombra triste que me impede de acreditar na vida.

 

uma volta pela minha cidade

Saí de casa para deitar o lixo fora. Finalmente havia sol embora continuasse a precisar do meu sobretudo. Tinha saudades de caminhar, passear pelas ruas da minha cidade sem um rumo certo. Andar, parar para ver uma montra, sonhar com os saldos da minha loja favorita e com as botas pretas de cano o. Suspirar por um cachecol colorido ou uma bolsa nova. Fica para a próxima. Continuo a dizer todos os anos.

Não penso na crise que marcou toda a minha. O que é novo para muitos para mim sempre existiu. Há alturas mais complicadas. Como não conseguir juntar dinheiro para comprar salmão, que gosto tanto. Outras coisas me absorvem e me devoram. Não interessa entrar em pormenores.

Ver pessoas a passear nas ruas da minha cidade. A cidade que não quero deixar para trás, que não quero perder. O eléctrico que vejo todos os dias a passar e que ainda não conheci. Os cafés cheios de histórias e pessoas interessantes. As gaivotas que de boazinhas pouco têm.

O que me move a caminhar na minha cidade? Já não tenho lixo a despejar nem dinheiro para gastar. Por que continuo eu a andar para aqui de um lado para o outro à procura sem procurar. A olhar para a frente, a parar quando me sinto cansada, a regressar a casa quando percebo que já nada há de novo para ver.

 

música de sangue quente

O sangue corre nas veias, não passa apenas. Corre aos saltos.Vejo o sangue a correr nestas memórias que guardo de vós, da nossa música. Vejo-me a correr na praia, a sacudir a areia com os pés e a mergulhar no mar. Vejo-me a rir em frente a uma mesa rodeada de gente, também a rir. Vejo-me a percorrer ruas desconhecidas sem medo, com a coragem de quem quer viver, capaz de enfrentar todos os pedregulhos…

Correm-me as lágrimas pelo rosto e faltam-me as palavras, toma-me de mim um sentimento de desprendimento da realidade, como se voasse num mundo de fantasia, num sonho de uma criança. É então que surge o oboé e vem o arrepio.

Apertam-se as mãos e acredita-se em energia positiva, na felicidade pura, no sonho real… deliciados com a música que aquece a alma, com toda a lamechice que a expressão contém. É mesmo isso, a lamechice que sabe tão bem quando não sabemos o que dizer e nos deixamos vencer pelo sentimento tão forte que nos impede de pensar. Sentir é tão bom. De que seria a música sem o sentir, sem o fogo que nos incendeia, nos toma e nos controla, sem esse sangue quente e arrojado que nos saltita nas veias… de que seria a música senão a força do sentimento, a força de nós, do que somos e nos deixamos ser…