fotos e outras memórias

img213.jpg

De vez em quando lá estou eu nas arrumações de fotos, das recentes às mais antigas, acabam por ser momentos de recordação e muito pouco de organização. As fotos são o registo do nosso passado, uma memória factual, não deturpada pela interpretação que fazemos desses instantes. Existiu, aconteceu, usamos mesmo aquelas roupas e penteados e sim, eram nossos aqueles sorrisos ou olhares perdidos.

É uma espécie de espelho. Olhamo-nos no passado e muitas vezes não reconhecemos esse eu no presente, como quando procurámos nas nossas fotos de infância traços físicos do que hoje somos. É uma busca de nós próprios. Perceber o que mudámos, o quê e quando mudámos. E porquê. O que nos levou por aquele atalho ou longo desvio, que momentos e que pessoas encontramos que nos mudaram, que viraram a nossa direção. As respostas vão surgindo nas fotos posteriores.

Dizem que o passado não interessa para nada porque já passou e não há nada que o possa mudar. Mas é no passado que nos conhecemos, que encontramos o rumo do presente, a origem do que nos atormenta ou nos faz feliz. É lá que estão as nossas mágoas e desilusões, a nossa coragem e força, o nosso eu que nos segura hoje. É pelo passado que valorizo o presente, que agradeço cada dia, cada momento de mudança. cada pessoa que cruzou na minha vida e me ensinou algo. É de lá que vem a saudade dos amigos que desejo abraçar e das pessoas queridas que já partiram.

Não quero apagar o passado. Pelo contrário. Quero lembrá-lo por tudo o que me pode fazer viver no futuro, pelo agora que vivo intensamente, pelos momentos felizes que vou festejar, pelos menos felizes que me vão ensinar tanta coisa…

E volto às fotos. Às minhas amigas do colégio e do secundário, às visitas de estudo, ao grupo de teatro e à banda, ao conservatório e às inúmeras fotos que nunca tirei na universidade. Aos aniversários, às comunhões e aos natais em família. À mãezinha e ao avô António que não conheci. À minha avozinha Deolinda. Ao meu mano querido…

Em cada imagem a saudade, a nostalgia e o agradecimento por teremos estados juntos, por termos vivido tantas alegrias juntos, tantas coisas banais na altura que hoje me parecem gloriosas, únicas, extraordinárias.

Que se desarrumem as fotografias para que eu as possa arrumar muitas vezes…

 

Da chuva, da inveja e outras coisas estúpidas

dsc_1131

Agora que a chuva cai lá fora e me aconchego numa manta, apetece-me falar da praia e do verão. Acontece-me todos os anos. No verão olho para a paisagem e não consigo imaginá-la com chuva ou neve. E depois, no inverno, o contrário. Tento forçosamente imaginar o calor entre o sobretudo, as luvas, as botas e o cachecol.

Às vezes gostava de ser como essas mulheres que planeiam cada pormenor de cada estação, cada tipo de bota ou sapato, camisola ou casaco, com as respectivas variações dos nomes que me escapam porque uma camisola é, sempre foi e sempre será uma camisola, mais fina ou mais grossa, mais leve ou mais pesada, é uma camisola!! Mas admito que possa ter outros nomes.

O que me inveja nessas mulheres é a segurança com que defendem as cores da moda, a combinação dos adereços e os inúmeros produtos de maquilhagem. Fazem-no tão naturalmente que até me sinto envergonhada em perguntar onde aprenderam aquilo tudo, se existe algum curso para que eu também possa tentar aprender. Mas não me parece, é inato, nasce com elas por isso cresce ainda mais a minha inveja.

De inveja em inveja, arrumei este ano o meu biquini e comprei um fato-de-banho. Saltei para água e esqueci-me o que era de tão relaxada que estava. Será que elas também relaxam assim ou continuam stressadas com o cabelo que se enruga com o vento ou outra coisa qualquer?

Um dia ofereceram-me um vestido que salientava a minha barriguita. Gostava do vestido mas não o usava porque alguém me disse que me ficava mal por causa da curva da barriga. Um dia, uma criança de 8 anos disse-me no seu tom mais seguro:

  • Que estupidez! Se gostas daquele vestido por que não andas com ele? O que interessa o que os outros dizem? O que interessa é o que tu gostas e aquilo que te faz sentir bem!

Já andava para aí virada mas desde esse dia passei a confiar as minhas dúvidas estúpidas às crianças, ou seja, em caso de dúvida, fala com uma criança até porque se elas gostarem de ti e não quiserem nada em troca vão ser mesmo sinceras, mesmo quando te dizem que precisas de fazer exercício físico.

Não há inveja que compense a gargalhada que vem lá do fundo e volta sempre que nos recordamos do momento em que surgiu. E não há inverno que compense os dias longos de verão.

 

sumos detox

DSC_0971(3)

 

Os sumos detox ou saudáveis ou multivitamínicos são a grande invenção para quem não morre de amores por sopa. Claro que há as saladas e eu até gosto muito mas no verão o que sabe bem é mesmo beber algo fresquinho, algo que dê para guardar no frigorífico e ainda acrescentar várias pedras de gelo.

O problema é que não tenho vida para fazer as coisas como mandam as instruções. Nem eu nem a maioria das mulheres que tem montes de coisas a fazer. Por isso aqui vai o meu critério de como fazer um sumo desses…

1 – ver o que há no frigorífico

2 – pegar em tudo o que há no frigorífico e cortar/descascar um pouquinho de cada

3 – ver o que há no armário em termos de sementes e juntar uma colher de cada uma dessas coisas

4 – misturar tudo com uma boa dose de água

5 – beber aos poucos de acordo com a coragem que a sede dá

Na foto está o meu último sumo que contém: beterraba, melancia, banana, maçã, inhame, gotinhas de limão, aveia, chia e linhaça. Esqueci-me de colocar gengibre e não pus pêssego nem tomate porque achei que podia ficar demasiado vitaminada.

Logo hoje que nem queria vestir vermelho

Imagina que tens de estar num determinado local a determinada hora. Pelo caminho apanhas chuva, trânsito e aselhas. Depois demoras 20 minutos a entrar no parque de estacionamento e só consegues lugar no último piso: -7

Esperas mais 15 minutos pelo elevador, porque achas que é mais rápido e só ele te pode salvar do atraso mais do que certo. Lá chegas e as coisas até correm bem e rápido. Até te dás ao luxo de tomar um café.

Regressas ao parque e pões o papelinho. Não dá. Viras e reviras e continua a não dar. A senhora atrás de ti pede para passar e consegue. Voltas a tentar e não dá. A outra senhora atrás de ti consegue. O segurança diz que já resolveu e podes arriscar novamente. Ouve o barulhinho da leitura e vês no ecrã: leitura impossível. Voltas a carregar no botão que chama o segurança, ninguém te responde. Procuras as outras máquinas e todas passam a estar fora de serviço. E nestes entretantos passam 20 minutos. Voltas à máquina inicial e ouves no altifalante: “a senhora de blusa vermelha o que quer?” E a fila que se amontoou para a olhar para ti. Voltas a tentar e consegues! Ufa!

Já a pensar nos planos seguintes toda animada, pego no carro e faço-me à vida. Tão atenta que estava na vida que ao sair do parque me vejo na faixa contrária, só porque um veículo estava na minha direção. E novamente tudo a olhar para mim. Logo hoje que nem queria vestir vermelho.

DSC_0970

dieta e pizza

 

DSC_0971

Ninguém merece. Acordar às 6h30, apanhar 2 horas de trânsito até Lisboa (uma delas só em Lisboa), saltar de sala em sala com os sacos de material às costas e o pc e as colunas… Passar o dia entre bebés e crianças até aos 10 anos até a paciência torrar. E depois aqueles dias que nem eles se aguentam a si próprios. E nem tu paras de pensar na pilha de roupa que tens para passar, a cozinha para limpar, o frigorífico à espera que passes no supermercado, os emails por abrir e telefonemas por retribuir.

Ninguém merece fazer dieta nestas condições. Não vale o argumento de que só almoças uma sopa e mais qualquer coisinha. É sexta-feira e o dia ainda vai a meio. Foi uma semana sem feriados. A alface do supermercado estava murcha e inapta para salada. Estou cansada, rabugenta, stressada e todas essas coisas que só nós, mulheres, entendemos. Aí chega o monstro a falar ao ouvido sorrateiramente enquanto procuramos um cantinho para almoçar no shopping: “aquele ali tem pouca fila e vê que cheirinho bom –  tem comida italiana!”

Estás a argumentar ruidosamente com essa voz e vais andando sem rumo até que quando cais em ti já estás na caixa a pedir uma pizza. Ninguém merece sofrer por gostar de comer. Ninguém merece abdicar de mimos que apesar de nos pesarem no corpo, nos alegram a alma!

 

dieta e batatas fritas

DSC_0958

A combinação perfeita: dieta e batatas fritas! De nada adiantam os sumos detox, as sopas e saladas, os chás drenantes e as coisas light. Tudo se perde no convite de duas crianças, as mais importantes do mundo, para ir almoçar ao Mac.

Até nem tenho apetite mas ele regressa desenfreadamente como se estivesse preso naquele plano apertado e asfixiante. E a partir do momento em que me rendo à primeira batata, logo se abre esse monstro da gordura. E já que estou por que não uma coca-cola, um geladinho, pronto, pacote completo.

Já que se perdeu mais um dia da dieta, da luta inglória de todos aqueles que têm peso a mais a par de uma gulodice sem medida. Dizem que felicidade engorda. Se comer bem nos dá prazer, já temos uma forma de felicidade, não obstante o corpo não caber nas roupas que queremos… Enfim, não se pode ter tudo.

Afinal era em cima que estava

DSC_1081

Aprendi a olhar para a frente, sem verificar o que ficou para trás, às vezes olhava para os lados mas achava que não eram para mim, a frente era o caminho. Só assim conseguia seguir. Pensar na luz que me acordava e na noite que me obrigava a descansar. Dia após dia. Por dentro, trazia entravadas as mágoas, as desilusões, o mundo largado no passado e marcado com muitas feridas. Não queria ficar lá atrás, a remoer, a pensar no que foi e no que poderia ter sido. O passado vive das recordações. Se não são boas que mais podemos guardar. Sim, claro, a aprendizagem, as lições, a maturidade. É preciso sofrer para crescer, dizem. Também é preciso ter o coração limpo para se ser feliz e demasiada dor só nos escurece.

Arrastava o passado como uma sina, a prova de tudo é difícil, a cruz que temos de carregar, dizem. Muitas coisas se dizem e também se diz que cada um é que sabe da sua vida. Mas não sabemos. Sentimos, tentamos pensar mas sabemos muito pouco. Desconhecemos se é melhor virar para a esquerda ou para direita, temos dúvidas, somos complexos, achamos que temos de ser felizes com isto ou aquilo e muitas vezes acreditamos que o somos. Quantas vezes queremos coisas incompatíveis, diferentes, opostas. Não sabemos. Fazemos escolhas erradas, não tomamos as decisões certas. Vamos aprendendo alguma coisa pelo caminho.

Foi a olhar para os lados e também para trás e para frente, e para baixo para não perder o rumo dos pés, que me dei conta do que estava em cima. Olhei e vi e senti e tantas outras coisas. Afinal era em cima que estava… Não sei explicar, não sei exatamente o quê. Sei apenas sentir. E é muito muito bom! Se puder tocar, mexer, posso dizer, é ela, a felicidade…

Os anjos estão aqui, ao pé de nós

Pushkar, Rajasthan, India © Nimit Nigam
Pushkar, Rajasthan, India © Nimit Nigam http://yourshot.nationalgeographic.com/photos/5630767/

Os olhos grandes e escuros, pestanas enormes, brilhavam de doçura. Bastava entregar-me ao olhar dele para me sentir acarinhada e compreendida, sem precisar dizer nada. Ele próprio sabia quando eu precisava mais do que uma palavra simpática, ele próprio estendia-me as mãos e abraçava-me com força. E é apenas uma criança.

A energia que lhe emana é poderosa, arranca-me todos os sorrisos, puxa-me pela esperança e pela vontade que às vezes me falta para lutar.

Os anjos até podem estar no céu, mas eu reconheço-os na terra, pelos olhos que nos entram pela alma dentro, pelas mãos que nos abraçam a dor que não queremos mostrar, pelas lágrimas que aquele abraço carinhoso nos engole. Os anjos estão aqui, ao pé de nós…

Olha para mim

20150318_160120136_iOS[1]

Olha para mim, vê como sorriem os meus olhos, como procuram os teus e lacrimejam de felicidade.

Olha para mim, prova o meu sorriso, aperta-o nos teus braços e não o deixes fugir.

Olha para mim, aquece o meu nariz frio com os teus beijos, sopra-me o teu calor.

Olha para mim, afaga as minhas mãos geladas, cobre-as com as tuas, tão macias.

Olha para mim, sente a minha alma entrelaçada na tua, o meu amor a brotar de todos os poros da minha pele. Ouve a minha respiração e diz-me se não a ouves a sussurrar que te amo, sim, muito…

estou aqui, como vês, neste avião

estou aqui, como vês, neste avião

DSC_0535

A trave que me tapa a luz. É tudo tão claro, lindo, iluminado. O sol é quente e tem força. Mas a trave esconde-o, como se de uma brincadeira se tratasse. Por muito que tape o brilho, não é suficiente para escurecer o que vejo, para limitar a claridade e a beleza do que me chega aos olhos.

Sonhei tanto que consegui voar, conseguir ver as nuvens de cima e a paisagem lá em baixo. Procurei sempre a luz, o bom tempo… sabia que estavas lá escondido. Destapei a tua timidez, mostrei-te como és, a tapar-te com as nuvens, a fugir do sol, com medo de voar. Tens os pés colados à terra, vives perdido na tua floresta negra, fria e húmida. E foges, corres, magoas as pernas no mato, sangras e não queres curativo. Cais e só te levantas para continuar fugir.

Enquanto andas à volta na floresta negra, enquanto vives constipado pelo frio e pela chuva que apanhas, enquanto recusas ver a luz e cobrir-te de esperança, eu já parti. Estou aqui, como vês, neste avião. O céu está azul e as nuvens tão fofinhas! Está calor e o sol brincar com as asas do avião que ora o escondem ora o mostram no auge da claridade. A luz que procuro está aqui, em frente aos meus olhos.

Tu ficaste lá em baixo… e vais regressar num dia de nevoeiro, quando eu me esquecer de ti e me perder de amores pela vida e pelas luzes da ribalta. Quando eu me esquecer da tua floresta negra e achar que te perdeste para sempre. Vais regressar molhado e ferido, doente e suplicante por uma nova oportunidade. Eu te estenderei a mão e te aquecerei nos meus seios. Será esse calor que te fará renascer, te devolverá à vida que é tua por direito.