O segredo de tudo está no amor, nos olhos atentos do dono, nas mãos do dono, na sensação que experimento, quando vou dar um passeio ou visito alguém durante meia hora, de que deixei o coração para trás e não estou em mim…
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Sabia por experiência que, quando os nervos fraquejam, o melhor remédio é o trabalho. Costumava então sentar-se à mesa e concentrar-se num pensamento definido. Retirou da pasta vermelha um caderno que continha o resumo de um pequeno trabalho que tencionava realizar durante aquela estada na Crimeia, se acaso se fartasse da inactividade. Sentou-se à mesa pôs-se a trabalhar nesse resumo. Afigurou-se-lhe estar a assumir de novo a sua antiga personalidade calma, resignada, objectiva. Aquele sumário levou-o a especular sobre a vaidade do mundo. Pensou no alto preço que ela exige em troca dos benefícios mais mesquinhos e vulgares concedidos ao homem. Para reger uma cadeira de filosofia antes dos quarenta anos; para ser um vulgar professor; para expor pensamentos comuns, pensamentos estes que já não eram seus,numa linguagem fraca, pesada e cansativa; numa palavra, para atingir a posição de um medíocre letrado, estudara durante quinze anos, trabalhara noite e dia, sofrera uma doença grave, fizera um casamento desastrado, tornara-se culpado de muitas loucuras e injustiças cuja recordação se tornava para ele uma tortura. Kovrin convencia-se agora completamente de que não passava de um medíocre e não conseguia conformar-se com esse facto, sabendo perfeitamente que todos o homem se deve dar por satisfeito com aquilo que é”.
Anton Tchekhov
Categoria: Citações
Um Caso Médico – Anton Tchekhov
Mas o médico não sabia por onde começar. Como havia de ser? É difícil perguntar aos condenados por que razão os condenaram; e é também aborrecido perguntar aos ricos por que motivos têm necessidade de tanto dinheiro; porque fazem tão mau uso da sua riqueza, porque não a deixam, mesmo quando vêem que aí reside a sua infelicidade… E se se começa a falar disso, a conversação é geralmente embaraçada e longa”.
Anton Tchekhov
A Minha Mulher – Anton Tchekhov
Era inevitável! Não havia em todo o distrito – disso tinha a certeza – mais ninguém capaz de os socorrer senão eu. A mim cumpria-me, pois, fazê-lo. Estava rodeado de pessoas sem instrução, pouco inteligentes, indiferentes, na maioria dente desonesta, ou honesta mas irreflectida, duma leviandade infantil, como era, por exemplo, a minha mulher. Não se podia contar com semelhante gente para nada, mas também não se podiam abandonar os camponeses à sua triste sorte.
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– A revolta alastra entre eles – recomeçou Ivan Ivanitch, chupando uma casca de limão. – Os famintos revoltam-se contra os que têm de comer… E estes irritam-se com os famintos… Sim… Não é este o momento para nos zangarmos, mas para sermos indulgentes. A fome é má conselheira, enloquece os homens, torna-os ferozes, selvagens. A fome não é algo irrisório. Quando voltamos a casa com fome, depois de uma boa caçada, somos capazes de ser insolentes até com a própria mãe… Sim… Um faminto torna-se insolente e rouba; a até pode vir a fazer coisas piores… é necessário que isto se compreenda”.
Anton Tchekhov
Do Amor e Outros Demónios
Conversavam até ao amanhecer, sem ilusões nem mágoas, como um velho casal condenado à rotina. Julgavam ser felizes, e talvez o fossem, até que um dos dois dizia uma palavra a mais ou dava um passo a menos, e a noite estragava-se numa luta de vândalos que desnorteava os mastins”.
Gabriel Garcia Marquez
Vítor Alves por Alice Vieira
ESTAVA EM VISEU, quando um SMS me avisou: “Morreu o Vítor Alves”.
Infelizmente era uma notícia daquelas que se esperam — mas que, no fundo, nunca se esperam. Porque todos os nossos amigos são eternos e, quando descobrimos que não são, temos muita dificuldade em acreditar.
Vítor Alves pertencia àquele grupo de homens a quem devemos viver hoje em liberdade e em democracia. Para as gerações mais novas, isto parece um dado tão adquirido que nem lhes passa pela cabeça que alguma vez pudesse ter sido doutra maneira.
Mas foi. Durante muitos anos.
Até que um dia estes homens decidiram arriscar tudo — vida, liberdade, carreira, saúde, família—em nome de um sonho que, com desvios e loucuras e erros e recuos, ainda é o que hoje nos mantém vivos e actuantes.
Esta é uma dívida que nunca poderemos pagar — nem eles estavam à espera disso.
Mas é muito triste descobrir como as pessoas têm a memória curta.
Foi vergonhosa a maneira como a morte de Vítor Alves foi tratada nos meios de comunicação — já para não falar das muitas horas de um velório quase vazio, quando deveria ter estado SEMPRE, em todas as horas, cheio de gente.
Atirada a notícia para o rodapé dos telejornais — que se enchiam do assassínio de Carlos Castro em Nova Iorque, com direito a um rol de jornalistas em directo, e entrevistas a meio mundo.
Reduzida, num jornal dito de referência, no dia a seguir ao enterro, a uma pequena fotografia em que se via a parte de trás do carro funerário e dois homens a ajudar a colocar o retrato junto do caixão — enquanto páginas inteiras continuavam reservadas ao crime passional de Nova Iorque.
Mas Vítor Alves não se meteu em escândalos, não morreu num hotel de luxo em Nova Iorque, não alimentou crónicas cor-de-rosa, nem sequer pertencia ao jet-set.
Pecados por demais suficientes para o atirar para o limbo dos que não merecem mais que uma breve evocação.
Mas se calhar é aí que ele fica bem — ao lado dos que deram tudo pela pátria, e que a pátria, vergonhosamente, esqueceu.”
Alice Vieira
«JN» de 14 Jan 11
O vapor das locomotivas
De madrugada, os soldados abriram as portas do lado das vias férreas e empurraram os homens e as mulheres para os vagões sem janelas, pintados em tons de camuflagem. Estava frio e o vapor das locomotivas espalhava-se em nuvens fosforescentes. As crianças agarravam-se às mães e talvez perguntassem: “Para onde vamos? Para onde nos levam?” Os cais, os edifícios da gare e a cidade em redor estavam vazios. Existiam apenas as figuras fantasmáticas dos soldados vestidos com os longos capotes, em pé, de espaço a espaço, sob o vapor dos comboios. Talvez os homens sonhassem fugir, bastaria esquecer as mulheres e as crianças e correr ao longo das vias, saltar os taludes e desaparecer nos campos. A madrugada era interminável e silenciosa, sem gritos nem vozes, sem pássaros nem ladrar de cães, apenas com o resfolegar das locomotivas e o barulho dos atrelados, seguidos do chiar agudo das rodas quando começaram a patinar nos carris e o comboio partiu para aquela viagem sem destino.”
J. M. G. Le Clézio, em Estrela Errante
Nada mais podia ter importância
Aqui, neste compartimento, nada mais podia ter importância, nada mais podia ser ameaçador, nem a morte de Mario, nem os alemães prestes a subirem o vale com os seus carros blindados, nem mesmo o vulto do pai que ia para a montanha, de madrugada, que desaparecia por entre as ervas como alguém que mergulha na morte.”
J. M. G. Le Clézio, em “Estrela Errante”
Quanto mais temos, mais queremos
Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida – mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.
Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!”
João Pereira Coutinho
Pobres dos nossos ricos
A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (…)”
MIA COUTO
O inferno
O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modo para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar”.