
Nasci depois do 25 de Abril de 74 e cresci em liberdade. Aprendi que devemos lutar pelos nossos direitos e defendermo-nos de quem atenta contra esses direitos. Para mim, falar sem medo e questionar é tão natural como a minha sede e a minha fome, graças ao 25 de Abril, a todos os que o fizeram acontecer e a todos os que morreram ao tentar fazê-lo.
Recentemente, vivi uma experiência que considerava algo impossível em 46 anos de liberdade. Gerações mais novas que têm medo de questionar, de perguntar, de defender os seus próprios direitos em troca de uma “paz podre”, onde uns mandam e outros obedecem, numa espécie de ética em que não se deve importunar “os superiores” porque eles podem vingar-se. E é melhor ficar calado… E obedecer. Por momentos, parecia que estava a contactar com as gerações mais velhas que sofreram a opressão salazarista, que têm o medo e a obediência entranhado até às vísceras, que sofreram de facto as consequências de um regime ditatorial.
Não consigo conceber um cenário onde não se possam fazer perguntas, dizer não a abusos e denunciar esses mesmos abusos. Não há argumentos que me convençam do contrário. Não há ética que justifique o ficar calado para não irritar as pessoas que nos podem causar problemas porque sim, porque lhes apetece. Faz-me lembrar a esposa que faz tudo para agradar ao senhor marido, que diz sim a tudo porque se ele se chatear pode lhe bater e isso ninguém quer, por isso é a esposa que deve fazer tudo para evitar a violência doméstica. Esta inversão é tão ridícula, é tão fascista!!
Fizemos o 25 de Abril para quê? Para que estas aberrações fossem isso mesmo: aberrações! Que as vítimas não fossem condenadas e os agressores não se transformassem em falsas vítimas.
É chocante que o medo, que a ética invertida, que o parecer bem se sobreponha ao correto, estejam ainda tão presentes nos mais novos. Se há medo em fazer apenas uma pergunta, para onde caminha o nosso 25 de Abril? Por isso hoje (e sempre) quero gritar ainda com mais força: liberdade sim, fascismo nunca mais!