Enganos da Maternidade

 

woman carrying baby at beach during sunset
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Há duas coisas que me “enganaram” em relação à maternidade, sobre o parto e sobre ser mãe. São inúmeras as histórias sobre partos e é verdade que a maioria aponta as dores do parto como as piores que existem. Porém, desde que chegou a epidural, acabaram as dores por isso acabaram os problemas sobre o parto. As histórias de dores horrorosas deram lugar a momentos românticos com o pai a assistir e a cortar o cordão umbilical – tudo registado em fotografias cheias de sorrisos de felicidade. Depois vemos a mãe super feliz no pós-parto, sem qualquer incómodo, praticamente pronta para parir novamente!

Na minha experiência, descobri “verdades” que valem o que valem. Primeiro, não há partos iguais. Cada caso é um caso, mesmo com as epidurais e todos os avanço da medicina. E cada pessoa é uma pessoa que reage de forma diferente às mesmas coisas. Parece-me que a maioria dos partos não decorre nesse “ambiente romântico” com que sonhamos ainda antes de engravidar e que, quando estamos grávidas, ninguém tem coragem de nos alertar já que estamos demasiado sensíveis e, realmente, até pode ser um parto fácil e bonito. Com isto, ponho já de parte as mamãs que tiveram a felicidade, o privilégio, de ter um parto de sonho – até deve dar vontade de repetir várias vezes.

Vamos a todas as outras. Não é bonito, nem romântico, nem maravilhoso. Caem-nos mais depressa lágrimas de desespero do que de felicidade. Há o trabalho de parto, as contrações, as epidurais, as intermináveis horas a soro só com o gostinho de um copo de água, chá ou gelatina açucarada de duas em duas horas. Há profissionais de saúde espetaculares que nos tratam como rainhas e outros pior do que pleibeias. Há ansiedade, medo, dúvidas, desorientação e desespero. E pode haver uma longa espera. E a verdade que nos escondem: a epidural pode não funcionar, ou seja, podemos sentir todas as dores das contrações, nada nos garante a ausência de dor. É aqui que entra o instinto maternal, a garra de leoa que caracteriza a mulher desde os primórdios da humanidade, essa capacidade de procurar forças não sei onde, de defender os filhos acima delas próprias, de ir ao fundo do poço vazio e voltar com um balde cheio de água. Passemos à frente a parte do parto em si, há histórias que dão livros de 600 páginas – não vou por aqui.

Ver os filhos nascer é de facto uma felicidade indescritível, pegar neles pela primeira vez e ouvi-los chorar, e sim, podem ser derramadas lágrimas de felicidade. É neste momento que há felicidade no parto, que até nos pode distrair do incómodo de sentir a agulha e a linha a passar nas nossas partes mais íntimas. Apenas um pormenor.

Desenganem-se se pensam que agora que terminou, está mesmo tudo terminado. Ainda agora começou. Seguem-se as dores do pós-parto, que só passam após um mês, com tudo a correr bem. Vivem-se aqueles incómodos muito desconfortáveis de não se poderem sentar, de procurarem numa cadeira uma posição para apoiarem uma parte da nádega. Não falemos das idas à casa-de-banho…

Sobre ser mãe… Não há palavras. Boas palavras, quero dizer. Sempre me disseram que é maravilhoso e é. Que é um amor maior e é. Que nos preenche completamente e é verdade. Mas é muito mais do que isso, por isso não há palavras, não as inventaram ainda ou as que existem não chegam, não são suficientes para descreverem o quão profundo é a maternidade e também a paternidade. Sim, porque ser mãe em pleno é ter ao nosso lado um pai igualmente encantado, apaixonado pelos seus filhos.

Por outro lado, sempre me enfatizaram a parte menos boa como se a maternidade fosse uma balança onde se pesassem os dois lados: o bom e o mau. Não é nada assim. Dá muito trabalho, exige sacrifícios, obriga-nos a abdicar de muita coisa, muda completamente a nossa vida? Sim, é tudo verdade. Mas não se põe numa balança a comparar com a parte boa, à espera das compensações pelas noites mal dormidas, pelo choro intermitente durante horas, pelas dores nas costas por tanto dar colo, pelo desespero de não se saber o que mais fazer para acalmar a pequena criatura… Essas coisas todas são reais mas demasiado insignificantes para serem mencionadas de forma tão frequente, com tanta importância. São desconfortos temporários, que durarão meses que passam a voar, que podem esgotar-nos mas vão-nos deixar imensas saudades. Porquê? Porque não dá para explicar, não há palavras, apenas de sente e sente-se com todo o nosso eu, com todo o nosso ser, até com o que ainda não somos.