
De vez em quando lá estou eu nas arrumações de fotos, das recentes às mais antigas, acabam por ser momentos de recordação e muito pouco de organização. As fotos são o registo do nosso passado, uma memória factual, não deturpada pela interpretação que fazemos desses instantes. Existiu, aconteceu, usamos mesmo aquelas roupas e penteados e sim, eram nossos aqueles sorrisos ou olhares perdidos.
É uma espécie de espelho. Olhamo-nos no passado e muitas vezes não reconhecemos esse eu no presente, como quando procurámos nas nossas fotos de infância traços físicos do que hoje somos. É uma busca de nós próprios. Perceber o que mudámos, o quê e quando mudámos. E porquê. O que nos levou por aquele atalho ou longo desvio, que momentos e que pessoas encontramos que nos mudaram, que viraram a nossa direção. As respostas vão surgindo nas fotos posteriores.
Dizem que o passado não interessa para nada porque já passou e não há nada que o possa mudar. Mas é no passado que nos conhecemos, que encontramos o rumo do presente, a origem do que nos atormenta ou nos faz feliz. É lá que estão as nossas mágoas e desilusões, a nossa coragem e força, o nosso eu que nos segura hoje. É pelo passado que valorizo o presente, que agradeço cada dia, cada momento de mudança. cada pessoa que cruzou na minha vida e me ensinou algo. É de lá que vem a saudade dos amigos que desejo abraçar e das pessoas queridas que já partiram.
Não quero apagar o passado. Pelo contrário. Quero lembrá-lo por tudo o que me pode fazer viver no futuro, pelo agora que vivo intensamente, pelos momentos felizes que vou festejar, pelos menos felizes que me vão ensinar tanta coisa…
E volto às fotos. Às minhas amigas do colégio e do secundário, às visitas de estudo, ao grupo de teatro e à banda, ao conservatório e às inúmeras fotos que nunca tirei na universidade. Aos aniversários, às comunhões e aos natais em família. À mãezinha e ao avô António que não conheci. À minha avozinha Deolinda. Ao meu mano querido…
Em cada imagem a saudade, a nostalgia e o agradecimento por teremos estados juntos, por termos vivido tantas alegrias juntos, tantas coisas banais na altura que hoje me parecem gloriosas, únicas, extraordinárias.
Que se desarrumem as fotografias para que eu as possa arrumar muitas vezes…

