fotos e outras memórias

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De vez em quando lá estou eu nas arrumações de fotos, das recentes às mais antigas, acabam por ser momentos de recordação e muito pouco de organização. As fotos são o registo do nosso passado, uma memória factual, não deturpada pela interpretação que fazemos desses instantes. Existiu, aconteceu, usamos mesmo aquelas roupas e penteados e sim, eram nossos aqueles sorrisos ou olhares perdidos.

É uma espécie de espelho. Olhamo-nos no passado e muitas vezes não reconhecemos esse eu no presente, como quando procurámos nas nossas fotos de infância traços físicos do que hoje somos. É uma busca de nós próprios. Perceber o que mudámos, o quê e quando mudámos. E porquê. O que nos levou por aquele atalho ou longo desvio, que momentos e que pessoas encontramos que nos mudaram, que viraram a nossa direção. As respostas vão surgindo nas fotos posteriores.

Dizem que o passado não interessa para nada porque já passou e não há nada que o possa mudar. Mas é no passado que nos conhecemos, que encontramos o rumo do presente, a origem do que nos atormenta ou nos faz feliz. É lá que estão as nossas mágoas e desilusões, a nossa coragem e força, o nosso eu que nos segura hoje. É pelo passado que valorizo o presente, que agradeço cada dia, cada momento de mudança. cada pessoa que cruzou na minha vida e me ensinou algo. É de lá que vem a saudade dos amigos que desejo abraçar e das pessoas queridas que já partiram.

Não quero apagar o passado. Pelo contrário. Quero lembrá-lo por tudo o que me pode fazer viver no futuro, pelo agora que vivo intensamente, pelos momentos felizes que vou festejar, pelos menos felizes que me vão ensinar tanta coisa…

E volto às fotos. Às minhas amigas do colégio e do secundário, às visitas de estudo, ao grupo de teatro e à banda, ao conservatório e às inúmeras fotos que nunca tirei na universidade. Aos aniversários, às comunhões e aos natais em família. À mãezinha e ao avô António que não conheci. À minha avozinha Deolinda. Ao meu mano querido…

Em cada imagem a saudade, a nostalgia e o agradecimento por teremos estados juntos, por termos vivido tantas alegrias juntos, tantas coisas banais na altura que hoje me parecem gloriosas, únicas, extraordinárias.

Que se desarrumem as fotografias para que eu as possa arrumar muitas vezes…

 

Enganos da Maternidade

 

woman carrying baby at beach during sunset
Photo by Pixabay on Pexels.com

Há duas coisas que me “enganaram” em relação à maternidade, sobre o parto e sobre ser mãe. São inúmeras as histórias sobre partos e é verdade que a maioria aponta as dores do parto como as piores que existem. Porém, desde que chegou a epidural, acabaram as dores por isso acabaram os problemas sobre o parto. As histórias de dores horrorosas deram lugar a momentos românticos com o pai a assistir e a cortar o cordão umbilical – tudo registado em fotografias cheias de sorrisos de felicidade. Depois vemos a mãe super feliz no pós-parto, sem qualquer incómodo, praticamente pronta para parir novamente!

Na minha experiência, descobri “verdades” que valem o que valem. Primeiro, não há partos iguais. Cada caso é um caso, mesmo com as epidurais e todos os avanço da medicina. E cada pessoa é uma pessoa que reage de forma diferente às mesmas coisas. Parece-me que a maioria dos partos não decorre nesse “ambiente romântico” com que sonhamos ainda antes de engravidar e que, quando estamos grávidas, ninguém tem coragem de nos alertar já que estamos demasiado sensíveis e, realmente, até pode ser um parto fácil e bonito. Com isto, ponho já de parte as mamãs que tiveram a felicidade, o privilégio, de ter um parto de sonho – até deve dar vontade de repetir várias vezes.

Vamos a todas as outras. Não é bonito, nem romântico, nem maravilhoso. Caem-nos mais depressa lágrimas de desespero do que de felicidade. Há o trabalho de parto, as contrações, as epidurais, as intermináveis horas a soro só com o gostinho de um copo de água, chá ou gelatina açucarada de duas em duas horas. Há profissionais de saúde espetaculares que nos tratam como rainhas e outros pior do que pleibeias. Há ansiedade, medo, dúvidas, desorientação e desespero. E pode haver uma longa espera. E a verdade que nos escondem: a epidural pode não funcionar, ou seja, podemos sentir todas as dores das contrações, nada nos garante a ausência de dor. É aqui que entra o instinto maternal, a garra de leoa que caracteriza a mulher desde os primórdios da humanidade, essa capacidade de procurar forças não sei onde, de defender os filhos acima delas próprias, de ir ao fundo do poço vazio e voltar com um balde cheio de água. Passemos à frente a parte do parto em si, há histórias que dão livros de 600 páginas – não vou por aqui.

Ver os filhos nascer é de facto uma felicidade indescritível, pegar neles pela primeira vez e ouvi-los chorar, e sim, podem ser derramadas lágrimas de felicidade. É neste momento que há felicidade no parto, que até nos pode distrair do incómodo de sentir a agulha e a linha a passar nas nossas partes mais íntimas. Apenas um pormenor.

Desenganem-se se pensam que agora que terminou, está mesmo tudo terminado. Ainda agora começou. Seguem-se as dores do pós-parto, que só passam após um mês, com tudo a correr bem. Vivem-se aqueles incómodos muito desconfortáveis de não se poderem sentar, de procurarem numa cadeira uma posição para apoiarem uma parte da nádega. Não falemos das idas à casa-de-banho…

Sobre ser mãe… Não há palavras. Boas palavras, quero dizer. Sempre me disseram que é maravilhoso e é. Que é um amor maior e é. Que nos preenche completamente e é verdade. Mas é muito mais do que isso, por isso não há palavras, não as inventaram ainda ou as que existem não chegam, não são suficientes para descreverem o quão profundo é a maternidade e também a paternidade. Sim, porque ser mãe em pleno é ter ao nosso lado um pai igualmente encantado, apaixonado pelos seus filhos.

Por outro lado, sempre me enfatizaram a parte menos boa como se a maternidade fosse uma balança onde se pesassem os dois lados: o bom e o mau. Não é nada assim. Dá muito trabalho, exige sacrifícios, obriga-nos a abdicar de muita coisa, muda completamente a nossa vida? Sim, é tudo verdade. Mas não se põe numa balança a comparar com a parte boa, à espera das compensações pelas noites mal dormidas, pelo choro intermitente durante horas, pelas dores nas costas por tanto dar colo, pelo desespero de não se saber o que mais fazer para acalmar a pequena criatura… Essas coisas todas são reais mas demasiado insignificantes para serem mencionadas de forma tão frequente, com tanta importância. São desconfortos temporários, que durarão meses que passam a voar, que podem esgotar-nos mas vão-nos deixar imensas saudades. Porquê? Porque não dá para explicar, não há palavras, apenas de sente e sente-se com todo o nosso eu, com todo o nosso ser, até com o que ainda não somos.

 

Minuto de Silêncio

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Contaram-me que fizeram um minuto de silêncio em tua homenagem. Chega-me imediatamente a tua imagem a rir, como se tudo isto fosse um espetáculo, talvez até um comédia. Surreal. Seria sim, há um ano se te contassem em sonho. Completamente ridículo!! “Um minuto de silêncio em minha homenagem?! Já viste que sonho estúpido?!” Para mim seria um pesadelo impossível, daqueles que nem aos outros acontecem. Mas aconteceu. E continua a ser impossível.

Continuo a achar que estás de viagem e que um dia destes me bates à porta de sorriso aberto. Feliz e entusiasmado como sempre. A verdade é que foste mesmo de viagem, mas sem data de regresso ou, pelo menos, não da forma como queríamos por agora. Acredito que estejas feliz e entusiasmado como sempre e até com outros projetos. Acredito em muita coisa.

Porém, nenhuma das crenças, nem toda a fé que tenho e alguma confiança diminuem a força do tsunami da saudade, da falta que me fazes todos os dias, da vontade que tenho de te abraçar, de te contar as novidades e de me perder no tempo das nossas conversas.

Um minuto de silêncio à procura de memórias que me confortem, silêncio de meditação à espera de te ouvir em algum canto, de te sentir na energia de algum objeto que tenha passado pelas tuas mãos, no brilho de uma estrela ou no canto de um pássaro. E fixar esse sorriso de alegria, de força, de otimismo, que certamente me mandará levantar a cabeça e fazer-me à vida das pequenas coisas que nos fazem felizes.