De que vale ser criança?

woman in brown scoop neck t shirt
Photo by Arvind shakya on Pexels.com

Carregas em ti o peso do mundo

E ainda és uma criança.

Tudo te negam, tudo te arrancam.

Direitos nunca tiveste, mandam os deveres

Como uma espinhosa herança.

 

Cuidas dos teus irmãos,

De dia só a ti te têm,

E como mãe te procuram.

Com eles vais para escola,

Por um futuro menos negro.

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Dizes não ter sonhos

E ainda és uma criança.

Vazio e sem brilho é o teu olhar.

Há muito que se foi a esperança,

Sobrevives sem nada almejar.

 

Pai não tens e mãe não sentes,

Cravada está no escravo emprego,

Para migalhas vos arranjar,

Pois sem pão não há sossego,

Num dia de cada vez…

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Vives como uma condenada

E ainda és uma criança.

No futuro não acreditas,

Com as mãos o agora levantas,

De infância negada.

 

Varres a poeira do barraco,

Onde a chuva cai e o frio entra.

Estendes no chão os farrapos,

Ondes enrolados deitais,

Para dormir e tentar sonhar.

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Doem-te os sonhos dos outros,

Porque não te deixaram ser criança.

Para ti só há o triste ser de agora,

Que para beber e lavar à fonte vai,

E na cabeça a água carrega no balde.

 

Já não queres saber o porquê

Da rejeição a ti e aos teus.

Só queres acordar a respirar,

Para dos teus manos tratar,

Num dia de cada vez…