De que vale ser criança?

woman in brown scoop neck t shirt
Photo by Arvind shakya on Pexels.com

Carregas em ti o peso do mundo

E ainda és uma criança.

Tudo te negam, tudo te arrancam.

Direitos nunca tiveste, mandam os deveres

Como uma espinhosa herança.

 

Cuidas dos teus irmãos,

De dia só a ti te têm,

E como mãe te procuram.

Com eles vais para escola,

Por um futuro menos negro.

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Dizes não ter sonhos

E ainda és uma criança.

Vazio e sem brilho é o teu olhar.

Há muito que se foi a esperança,

Sobrevives sem nada almejar.

 

Pai não tens e mãe não sentes,

Cravada está no escravo emprego,

Para migalhas vos arranjar,

Pois sem pão não há sossego,

Num dia de cada vez…

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Vives como uma condenada

E ainda és uma criança.

No futuro não acreditas,

Com as mãos o agora levantas,

De infância negada.

 

Varres a poeira do barraco,

Onde a chuva cai e o frio entra.

Estendes no chão os farrapos,

Ondes enrolados deitais,

Para dormir e tentar sonhar.

 

Quando tudo te é negado,

De que vale ser criança?

 

Doem-te os sonhos dos outros,

Porque não te deixaram ser criança.

Para ti só há o triste ser de agora,

Que para beber e lavar à fonte vai,

E na cabeça a água carrega no balde.

 

Já não queres saber o porquê

Da rejeição a ti e aos teus.

Só queres acordar a respirar,

Para dos teus manos tratar,

Num dia de cada vez…

 

sexta-feira de outono

IMG_20181223_130621.jpgUma sexta-feira de outono pouco comum: ontem foi feriado (Dia de Todos os Santos) e amanhã é sábado. Muita gente aproveitou o dia de hoje para tirar folga e aproveitar um fim-de-semana prolongado. Podemos ver pessoas a tomar o pequeno-almoço numa esplanada envidraçada, a caminhar na rua enquanto falam ao telemóvel, a carregar compras da mercearia.

Nas varandas dos prédios, puxam-se os estores, estende-se roupa, sacodem-se os tapetes ou fica-se a fumar um cigarro, antes que chova. Sim, pode chover a qualquer momento: o céu está cinzento e as nuvens parecem carregadas. O vento bate-nos a cara e sopra as folhas das árvores que caem, vermelhadas, castanhas, amareladas e até verdes, formando tapetes desalinhados e disformes na calçada, junto aos passeios e nas plantas mais rasteiras. O chão ainda está molhado, cheira a terra húmida, deve ter chovido há pouco. O frio chateia, mas já dá para sentir o calorzinho do sol, que espreita entre as nuvens escuras e estas deixam escapar um rasgo de céu azul.

A caminho da Rotunda do Forcado, podemos deixar-nos encantar pelas longas filas de árvores, umas grandes e cheias de folhas, outras médias ou pequenas. E pelos passarinhos que ainda se ouvem cantar.  A calçada portuguesa preenche quase todo o passeio e até há uma pista para bicicletas. Hoje também há muito pouco movimento de carros, o ambiente ideal para uma caminhada. Ou até umas compras, pois as lojas estão todas abertas.

No entanto, também podemos ser surpreendidos por lixo espalhado pelo chão, sobretudo nos espaços verdes onde não há árvores nem flores, como se estivessem à espera das mãos de um jardineiro para ganharem vida. Também nos podem incomodar ecopontos velhos e sujos, pedras soltas nos passeios, remendos na estrada, obras inacabadas e, mais perto da ESES, na rotunda Luiza Andaluz, uma garrafa vazia de licor Beirão, copos de plástico, maços de tabaco vazios, cartazes de eventos do passado como o já sem cor da festa do Avante ou o rasgado do FITIJ.

O trajeto reflete a paisagem. Os bairros de prédios velhos, outrora brancos, mas agora sujos, a precisarem de uma “cara nova”, são contrastados com um edifício mais recente, cor-de-rosa e um outro em construção.

A enorme grua que sombreia a Rotunda do Forcado parece sugerir isso mesmo, o progresso, o futuro a tentar entrar pelo mundo do passado, como o sol a espreitar entre as nuvens num dia de outono.