
Carregas em ti o peso do mundo
E ainda és uma criança.
Tudo te negam, tudo te arrancam.
Direitos nunca tiveste, mandam os deveres
Como uma espinhosa herança.
Cuidas dos teus irmãos,
De dia só a ti te têm,
E como mãe te procuram.
Com eles vais para escola,
Por um futuro menos negro.
Quando tudo te é negado,
De que vale ser criança?
Dizes não ter sonhos
E ainda és uma criança.
Vazio e sem brilho é o teu olhar.
Há muito que se foi a esperança,
Sobrevives sem nada almejar.
Pai não tens e mãe não sentes,
Cravada está no escravo emprego,
Para migalhas vos arranjar,
Pois sem pão não há sossego,
Num dia de cada vez…
Quando tudo te é negado,
De que vale ser criança?
Vives como uma condenada
E ainda és uma criança.
No futuro não acreditas,
Com as mãos o agora levantas,
De infância negada.
Varres a poeira do barraco,
Onde a chuva cai e o frio entra.
Estendes no chão os farrapos,
Ondes enrolados deitais,
Para dormir e tentar sonhar.
Quando tudo te é negado,
De que vale ser criança?
Doem-te os sonhos dos outros,
Porque não te deixaram ser criança.
Para ti só há o triste ser de agora,
Que para beber e lavar à fonte vai,
E na cabeça a água carrega no balde.
Já não queres saber o porquê
Da rejeição a ti e aos teus.
Só queres acordar a respirar,
Para dos teus manos tratar,
Num dia de cada vez…
Uma sexta-feira de outono pouco comum: ontem foi feriado (Dia de Todos os Santos) e amanhã é sábado. Muita gente aproveitou o dia de hoje para tirar folga e aproveitar um fim-de-semana prolongado. Podemos ver pessoas a tomar o pequeno-almoço numa esplanada envidraçada, a caminhar na rua enquanto falam ao telemóvel, a carregar compras da mercearia.