Não temas. Estás contigo.

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Sonhava, abria os olhos e voltava a sonhar. A realidade era fria, pesada, amarga. Criar uma ilusão, uma vida imaginária para fugir do que via, sobretudo do que sentia. Mas a sombra da realidade era mais forte do que a luz frágil da fantasia. Abrir os olhos e ver a sombra, olhá-la nos olhos. Aterrador. Ou vives o que és ou não vives, apenas finges e a acabas por ser profundamente infeliz, sem saber já o que és, muito menos o que queres.

Não há receitas, todos os conselhos parecem certos e errados. Ninguém te conhece, nem tu mesmo. Até que decides ouvir-te, conhecer-te, descobrir o que está para além dessa sombra que de apaga, que te consome. Dói. Mesmo muito. Dói saber que não és o que achavas que eras, que não és o que tentaste ser, que as tuas qualidades não são aquelas que os outros elogiam e aquelas que deves ter parecem-te estranhas, não se enquadram nessa imagem que criaste inconscientemente. Dói não quereres mais isto nem aquilo. Não quereres mais estar com esta ou com aquelas pessoa. Dói não te reconheceres. Dói perceberes que tens de começar do zero, que tens de mexer nas entranhas para te encontrares. Dói sentires que as pessoas também não te reconhecem e que não se preocuparam em te procurar lá no fundo porque a superfície era-lhes agradável.

Na bagagem que fazes, acabas por deixas muita coisa para trás, coisas que antes te eram insubstituíveis e agora nada te dizem. Depois vem o medo. Medo do que vai ser, medo do que vais encontrar dentro e ti como vais gerir isso tudo, como vais deixar fluir esse eu.

Porém, o medo não faz parte do teu eu. Assim como outras tantas coisas. Não entram nos teus ouvidos o que os outros dizem, não te ferem as críticas destrutivas, não te vergas perante os obstáculos. Descobres que és mais forte do que a superfície que eras e não te deixas esmagar pela sombra, porque ela não te incomoda, apenas te alerta quando te desleixas.

Não sabes para onde vais nem te importas com isso. De que vale o que vem se te tens a ti, se ganhaste a certeza de que nunca te vais abandonar porque tu és o mais importante, a única coisa que te pode fazer verdadeiramente feliz.

E nesse apaixonar por ti mesmo, entendes que o sol está sempre lá, que as nuvens servem para animar o céu e dar-lhe movimento. Que sem chuva não haveria arco-íris nem abraços molhados. Que a natureza ganham cores diferentes a cada minuto e em cada verde há milhares de tonalidades. Percebes que os animais falam com os olhos e as pessoas fazem-se entender pelo toque e pelas expressões que tentam esconder. Perdes-te a admirar a vida, o mundo e as pessoas. Não temas. Estás contigo.

E depois?… A realidade supera todos os sonhos e o amor acontece.