A trave que me tapa a luz. É tudo tão claro, lindo, iluminado. O sol é quente e tem força. Mas a trave esconde-o, como se de uma brincadeira se tratasse. Por muito que tape o brilho, não é suficiente para escurecer o que vejo, para limitar a claridade e a beleza do que me chega aos olhos.
Sonhei tanto que consegui voar, conseguir ver as nuvens de cima e a paisagem lá em baixo. Procurei sempre a luz, o bom tempo… sabia que estavas lá escondido. Destapei a tua timidez, mostrei-te como és, a tapar-te com as nuvens, a fugir do sol, com medo de voar. Tens os pés colados à terra, vives perdido na tua floresta negra, fria e húmida. E foges, corres, magoas as pernas no mato, sangras e não queres curativo. Cais e só te levantas para continuar fugir.
Enquanto andas à volta na floresta negra, enquanto vives constipado pelo frio e pela chuva que apanhas, enquanto recusas ver a luz e cobrir-te de esperança, eu já parti. Estou aqui, como vês, neste avião. O céu está azul e as nuvens tão fofinhas! Está calor e o sol brincar com as asas do avião que ora o escondem ora o mostram no auge da claridade. A luz que procuro está aqui, em frente aos meus olhos.
Tu ficaste lá em baixo… e vais regressar num dia de nevoeiro, quando eu me esquecer de ti e me perder de amores pela vida e pelas luzes da ribalta. Quando eu me esquecer da tua floresta negra e achar que te perdeste para sempre. Vais regressar molhado e ferido, doente e suplicante por uma nova oportunidade. Eu te estenderei a mão e te aquecerei nos meus seios. Será esse calor que te fará renascer, te devolverá à vida que é tua por direito.

