estou aqui, como vês, neste avião

estou aqui, como vês, neste avião

DSC_0535

A trave que me tapa a luz. É tudo tão claro, lindo, iluminado. O sol é quente e tem força. Mas a trave esconde-o, como se de uma brincadeira se tratasse. Por muito que tape o brilho, não é suficiente para escurecer o que vejo, para limitar a claridade e a beleza do que me chega aos olhos.

Sonhei tanto que consegui voar, conseguir ver as nuvens de cima e a paisagem lá em baixo. Procurei sempre a luz, o bom tempo… sabia que estavas lá escondido. Destapei a tua timidez, mostrei-te como és, a tapar-te com as nuvens, a fugir do sol, com medo de voar. Tens os pés colados à terra, vives perdido na tua floresta negra, fria e húmida. E foges, corres, magoas as pernas no mato, sangras e não queres curativo. Cais e só te levantas para continuar fugir.

Enquanto andas à volta na floresta negra, enquanto vives constipado pelo frio e pela chuva que apanhas, enquanto recusas ver a luz e cobrir-te de esperança, eu já parti. Estou aqui, como vês, neste avião. O céu está azul e as nuvens tão fofinhas! Está calor e o sol brincar com as asas do avião que ora o escondem ora o mostram no auge da claridade. A luz que procuro está aqui, em frente aos meus olhos.

Tu ficaste lá em baixo… e vais regressar num dia de nevoeiro, quando eu me esquecer de ti e me perder de amores pela vida e pelas luzes da ribalta. Quando eu me esquecer da tua floresta negra e achar que te perdeste para sempre. Vais regressar molhado e ferido, doente e suplicante por uma nova oportunidade. Eu te estenderei a mão e te aquecerei nos meus seios. Será esse calor que te fará renascer, te devolverá à vida que é tua por direito.

de baixo para cima

DSC_0005 (2)

Olho para o alto, lá em cima e sinto-me tão pequena, minúscula. Basta uma árvore destas para me derrubar e me provar de que nada me serve a minha força quando comparada com a força de natureza ou do destino, o que quer que seja ou se lhe chame. A impotência perante a natureza é atroz. Nada valem as crenças, os sonhos, as confianças e conquistas. Uma árvore destas derruba tudo, não deixa nada para contar a história.

A minha história é vivida entre árvores destas… Não fui ainda derrubada por nenhuma árvore mas já senti muitas vezes o vento a abaná-las, a chuva a molhar-me e fazer-me fria, constipada e arrepiada. Já tremi de medo, já corri na escuridão, escorreguei e embati nos seus tronco. Tive medo de as olhar de frente, de baixo para cima. E já as desafiei.

Foi assim que o sol se escondeu nas nuvens. O céu ficou cinzento e as gotas começaram a cair. O vento soprou e eu, apanhada desprevenida numa tarde de Verão, caí. No chão fiquei, a olhar para árvores, a admirar-lhes a sua altura, a sua imponência. Confesso que não me apetece levantar-me. Estou bem no chão porque vejo agora o quão minúscula sou e que de nada me vale lutar contra a sua força, contra o poder da própria natureza.