Não eram as palavras nem os gestos, eram os olhos, aquele olhar que fere, que pede satisfações, que chora e suplica. As crianças são puras e autênticas como os animais. As palavras podem não dizer muito, os gestos podem ser inseguros mas o olhar não mente, diz o que nem mesmo elas sabem que está lá dentro.
Deus pode abdicar das palavras, mas não abdicou do espelho da alma, do olhar, o sentir que controla o saber e o conhecer. Vem antes de tudo e é o último a ir-se embora – o sentir, a emoção…
Podes dizer que não, que não queres, que não ligas nem queres saber. Podes negar sempre e com a maior das convicções. Podes dizer que controlas tudo e que nada te faz vacilar. O teu corpo pode-te obedecer na verdade que queres dar a conhecer, mas os olhos não. Eles não te deixam mentir por inteiro. Eles impedem a verdade que criaste e queres que os outros acreditem. Os olhos não te obedecem, não alinham nos teus planos. Mesmo que queiras esconder a raiva ou disfarçar a dor. Mesmo que te sintas forte e nada quebre o teu orgulho. Os olhos estão e só um cedo não os vê, um cedo de almas, um cego como tu que quer ver mas não quer ser visto.
O que o Natal pode fazer a mais é apenas isso: pedir às pessoas que abram os olhos, sem medo de serem apanhadas na verdade verdadeira, na emoção lá do fundo.
