como seria?

Como seriam as flores no tempo dos românticos, como seriam as vidas, as cores e as palavras. Como seria amar no tempo do amor? Teriam estas flores as mesmas cores, o mesmo cheiro, o mesmo brilho? Como seria?

Como seria eu se não vivesse agora ou o agora fosse o que não é?

Como seriam os dedos das minhas mãos e os fios do meu cabelo? Casa passo, cada sorriso, cada palavra… seria assim, igual ao hoje que me amargura e oprime? À vida social que me sufoca e ao futuro que me entristece. Como circularia o meu sangue e qual seria a sua cor?

No meu espelho vejo outro rosto, numa outra casa, numa outra terra, num outro mundo. Vejo-me serena e segura. Talvez feliz. Vejo estas flores, mas com outro brilho e o cheiro, tão intenso!

ali sentada, à espera.

Está ali sentada, à espera. Levanta-se e procura. Volta a sentar-se. Sempre inquieta e muito insegura. Tenta sair mas não consegue. Olha para a poltrona e acha-a linda. Talvez não encontre uma melhor. Talvez seja melhor assim. E imagina coisa, cenários, filmes, histórias e grandes romances.

O tempo passa, a vida anda e as pessoas envelhecem. O corpo fica pesado e apetece ainda mais sentar ali e espera que venha o tempo e a leve para onde tem de levar.

De paz, de amor, de misericórdia.

Apetece-me rezar mas não sei como. As orações que me ensinaram parecem-me vazias. Queria dizer tanta coisa e não que palavras usar para falar com Deus. Orar. Rezar. Como se reza, Meu Deus? Como podemos falar contigo? Precisamos de explicar as nossas mágoas ou basta abrirmos o nosso coração para que vejas, com os teus próprios olhos, o que aqui vai? Sem ter de usar frases, explicações.

Custa falar da dor. Contigo não e preciso falar, tu vês tudo. E a oração? De que serviria a oração se não precisamos de dizer nada, já que vês tudo? É óbvio que suplicamos a tua ajuda, que precisamos imenso de ti… que somos fracos, cometemos erros, sofremos decepções e desiludimos os outros, que vivemos numa bola de neve de mágoas, frustrações, revoltas, tristezas. Sabes isso tudo. A oração seria a prova de que assumimos que precisamos de ajuda?

Tem piedade. Olha nos meus olhos e diz-me se alguma vez eu dispensei a tua ajuda, a tua misericórdia. Se poderia alguma vez viver sem o teu apoio, sem esta fé que me mantém de pé.

Não sei o que queres que te diga em oração. Não sei como te fazer ver que quero muito que limpes as minhas lágrimas e me dês colo. Segures na minha mão e me ajudes a caminhar. Que não me abandones num mundo que me amargura e desespera. A tua mão na minha e serei capaz, serei forte. Verei essa luz e ficarei iluminada. De paz, de amor, de misericórdia.