devolve-me aquilo que nunca foi meu

Devolver a cidade às pessoas e restaurar o que houver para restaurar. Seria a nossa cidade, de cores e sonhos e paredes bonitas, casas arranjadinhas e asseadas….

A pé, de metro ou autocarro, os olhos vêm coisas que de automóvel não dá para ver. Não são os semáforos, as passadeiras ou os carros que andam sem regras, são pessoas, casas, lojas, coisas que vemos. Paredes sujas, a cair de podres, ervas daninhas a servirem de caixote do lixo a céu aberto, vidros partidos, telhados pela metade. Imagens forte de abandono, de coisas que já não servem para nada a não ser ferir o olhar e estragar a beleza dos edifícios que venceram ou nasceram de novo.

E há uma tristeza tão grande na cidade que se apresenta assim, tão sem dono, completamente abandonada, com a fatalidade do fim, do que acontece quando tudo acaba e se fecha o pano. Vêm os bichinhos, as ervas daninhas, o lixo, o negrume das cores e a cair aos pedaços.

Devolve-me aquilo que nunca foi meu, que eu perdi ainda antes de ter, que os outros deixaram para mim sem saber se algum dia eu viria, a casa que não é minha, os alicerces que seguram o telhado e as cores que quero espalhar na cidade tão escura. Não quero ser incomodada com coisas feias enquanto caminho e piso a calçada que me leva para o trabalho. Quero ver coisas lindas e sentir que dessas cores vem a alegria que se espera de uma casa habitada por famílias que lutam para ser felizes. Por pessoas como eu, como nós que querem pôr a andar o que está parado e ter de volta aquilo que lhes devia pertencer nem que fosse apenas às vistas.