ando às voltas na floresta da vida

Ando às voltas na floresta da vida. Sinto o cheiro das árvores e gosto. Do ar puro e da brisa que baloiça as folhas e toca nos canos. Gosto de ouvir os pássaros e o vento. Gosto da floresta e de caminhar também. Ando às voltas e quase sempre vou ter ao mesmo lugar, ao início. Claro que estou menos fresca e até cansada mas também estou mais leve e relaxada.

Não sei bem o que procuro. Sei mais depressa o que não procuro. Quero aquela paz da alma, do corpo, da mente. Quero ser feliz. E todos os dias penso nisso. E em formas de ser feliz e não saio da floresta. No Inverno dá frio, chove e é tudo muito desagradável. E ultimamente não consigo deixar de ter frio e de sentir o peso da chuva nos meus ossos frágeis.

Gostava de chamar alguém para me aquecer com uma manta e me dar a beber chá quente. Não conheço ninguém nem tenho vontade em procurar, em me lançar à aventura disposta a tudo. Estou velha demais.  Descrente e sem esperança como os velhos. Com os ossos a doer e a fazer queixinhas todos os dias, quase a todas as horas.

Quando fui a Serralves passear com a minha amiga Teresa fiquei pasmada de encanto por o mundo existir e eu não dar por nada. Por me fechar no meu canto à espera da próxima tempestade, de facto elas não dão tréguas, e dar o corpo à dor, sem resistência, estoicamente, assim tem de ser. E o mundo lá fora, cheio de encanto, delicioso. E eu incapaz de abrir a porta da minha casa e sair à rua para me deslumbrar, me entregar ao mundo dos encantos.

esse parecer que não me engana. de certeza.

Não falam mas parecem comunicar tão bem. Os animais falam pelo movimento, pelo som… parece. Parece que a vida dos outros é melhor do que a nossa. Já diziam os antigos da minha aldeia que cada um carrega a sua cruz e ninguém se livra dela por muito que pareça. Há muito que deixei de acreditar no que parece. E no parecer já muito se vê daquilo que se é. E essa preocupaçao desmesurada com o parecer, com o agradar e sorrir, o dar-se bem e mostrar que se esbanja felicidade.

Esse parecer que não nos engana mais do que a quem quer parecer. Pareceres de enganos, ilusões e pedaços de frustração. O ser será assim tão desprezível, ainda mais do que parecer o que não é e humilhar-se em mostra-se grande quando se é tão pequeno? Que alma é essa que não se pode ver? Que fealdade é essa que se quer esconder?

E os patos, ali tão sossegados, dizem-me que não tenho nada a ver com a vida delees, embora não se importem que eu lhes tire umas fotografias. Parece que estamos mais importados com eles do que eles connosco porque nós somos mais importantes e é dessa importância que nasce o parecer, o querer ser e o parece mal…

Achas que parece mal? Dizia-me ela a cada pergunta. Parece mal a quem? Por isso te deixei nesse mundo dos pareceres com a certeza de que enquanto esse verbo te controlar tu não serás feliz. Nem ninguém.  E não adianta dizerem-me que parece que. Não acredito, de certeza.

devolve-me aquilo que nunca foi meu

Devolver a cidade às pessoas e restaurar o que houver para restaurar. Seria a nossa cidade, de cores e sonhos e paredes bonitas, casas arranjadinhas e asseadas….

A pé, de metro ou autocarro, os olhos vêm coisas que de automóvel não dá para ver. Não são os semáforos, as passadeiras ou os carros que andam sem regras, são pessoas, casas, lojas, coisas que vemos. Paredes sujas, a cair de podres, ervas daninhas a servirem de caixote do lixo a céu aberto, vidros partidos, telhados pela metade. Imagens forte de abandono, de coisas que já não servem para nada a não ser ferir o olhar e estragar a beleza dos edifícios que venceram ou nasceram de novo.

E há uma tristeza tão grande na cidade que se apresenta assim, tão sem dono, completamente abandonada, com a fatalidade do fim, do que acontece quando tudo acaba e se fecha o pano. Vêm os bichinhos, as ervas daninhas, o lixo, o negrume das cores e a cair aos pedaços.

Devolve-me aquilo que nunca foi meu, que eu perdi ainda antes de ter, que os outros deixaram para mim sem saber se algum dia eu viria, a casa que não é minha, os alicerces que seguram o telhado e as cores que quero espalhar na cidade tão escura. Não quero ser incomodada com coisas feias enquanto caminho e piso a calçada que me leva para o trabalho. Quero ver coisas lindas e sentir que dessas cores vem a alegria que se espera de uma casa habitada por famílias que lutam para ser felizes. Por pessoas como eu, como nós que querem pôr a andar o que está parado e ter de volta aquilo que lhes devia pertencer nem que fosse apenas às vistas.

E o mundo dava voltas.

Apertei-lhe a mão com força. Podia acontecer tudo mas as nossas mãos estariam sempre unidas, mesmo longe um do outro. Era um elo eterno, por muitas voltas que desse o mundo.

E o mundo dava voltas e nós fazíamos as nossas vidas longe um do outro. Nas voltas do mundo aprendi a sorrir com o sofrimento e apanhar do chão as migalhas de alegria que encontrava. Vi-te tantas vezes quantas precisei de ti, da tua mão e do teu abraço. Vi-te nos jardins por onde caminhávamos de mão dada, vi-te nas praias de Inverno deserto onde procurávamos o pôr-do-sol. Nas nuvens, onde nos deitávamos depois de nos amar.

o sol brilha e faz brilhar

O sol brilha e faz brilhar. Transforma, aquece e derrete. E os meus olhos brilham, abrem-se de emoção quando vejo e deixo-me encantar por coisas lindas. Sim, emocionam as palavras, os gestos e os fazeres nobres da vida, os grandes caracteres, os corações de manteiga que nos tocam…

Choro de emoção com o abraço de uma amiga, com a alma pura que ainda conserva apesar das marcas do tempo, apesar de chacina do mundo em que vivemos. Como resistem estas almas, como podem elas manter-se de coração aberto?

Choro de tristeza quando perco uma amiga, quando a vejo soltar-se da minha mão porque busca outras verdades, outros caminhos onde eu nunca poderei fazer sentido. Choro porque a vejo perdida, a caminhar com rumo falso e escuro. Sei que ela vai cair mas sei também que nada do que possa fazer a vai fazer acreditar em mim ou diminuir a minha mágoa. A dor da perda.

Choro de alegria agarrada aos meus sobrinhos, mimada pelos seus beijos e abraços, da mais bela pureza. O amor lá do fundo, sem interesses, sem ratoeiras, está naqueles olhos grandes e límpidos e nos sorrisos que derrubam qualquer desencanto.

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são as ruas em paralelo, passeios sujos, gatos vadios que se escondem debaixo dos carros, gaivotas à procura de comida e muitas pombas. O Porto da minha memória nunca vai ser um Porto feliz, cheio de vida e cor. O Porto que me fica é um Porto esquecido, velho, que quer acreditar mas já não tem forças para isso… Sim, há casas lindas, restauradas ou mesmo novas, lugares fabulosos, cafés, lojas super modernas e cosmopolitas… mas lado a lado com a senhora que vende jornais e não fala de outra coisa senão da crise e do passado que era bom, dos velhos enrugados, curvados, abandonados que se arrastam amargurados nas ruas e vivem debaixo de tectos a cair de podres, com uma reforma miserável…

O Porto que se quer novo não consegue livrar-se do peso, um peso que vem de trás, de séculos de história, de lutas muita vezes inglórias, um peso de quem não acredita que valha a pena. Por mais que as ruas da Galeria de Paris soltem gargalhadas, pulem de alegria e gritem de garra e juventude, não conseguem esconder a tristeza do rosto das suas gentes, a falta de sorrisos lindos e olhares de esperança.

Confesso que me apaixonei pelo Porto à primeira vista… e há mais de 5 anos que dura este amor que certamente vai ser eterno. E fui descobrindo que o sorriso triste não era do momento mas sim da alma. Venham as gaivotas chorar no Douro, as pombas pedir migalhas nos Aliados, os clientes mexer Santa Catarina e os artistas levantar Miguel Bombarda, que o Porto das gentes amarguradas há-de, um dia, soltar-se das suas amarras!

um dia especial

Todos os anos, repete-se o gesto, o bolo, as velas e os parabéns. Sempre com a ansiedade de que é um dia especial, diferente dos outros e que os outros, pessoas, lembram-se de mim. O aniversário vai ao fundo das nossas carências. Como desejamos ouvir Parabéns e receber votos de Felicidades. E depois a canção dos Parabéns a Você que é para mim e só para mim!

Vem lá do fundo essa necessidade de receber atenção. De querer à minha volta os amigos e familiares, de querer tanto esse mimo! A emoção, o sentir que nos amam e nos querem bem. Ter a certeza disso, mesmo que nos maus momentos não possam estar presentes ou não sejam capazes. Amam e isso não dá para negar. Como eu me amo e amo os meus e se calhar os dos outros.

Não é treta. O amor é mesmo o melhor, o mais importante, aquilo que realmente vale a pena. Quando escorrega das nossas mãos porque não consegue segurar a dor. Ou foge demasiado rápido quando estamos distraídos. Ou não o vemos. Ou procuramos lá longe o que está tão perto. Cada um ama à sua maneira. Nós não amámos à maneira dos outros. Nem sequer como queremos. E vamos aprendendo a segurar esse amor que nos preenche os vazios da alma, que sara as dores das desilusões e nos move a enfrentar as dificuldades.

Nasci tão bem num dia de calor intenso, cheia de fome e com uma enorme vontade de viver. Como hoje e como sempre. Juntos dos que não deixaram o amor escorregar das minhas mãos.

tem olhos nas penas

Ele solta as penas e mostra os olhos pendurados nas penas. Sabe que todos os admiram e se deslumbram pela sua beleza. Vale a pena passar no Palácio de Cristal só para ver estar criaturas a abrir a sua cauda, a caminhar ao nosso lado sem pressa.

Vale a pena deixar de pensar no tempo e olhar apenas, sentir a vibração daquela beleza, o brilho daquelas penas, a energia daquelas cores…