O segredo de tudo está no amor, nos olhos atentos do dono, nas mãos do dono, na sensação que experimento, quando vou dar um passeio ou visito alguém durante meia hora, de que deixei o coração para trás e não estou em mim…
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Sabia por experiência que, quando os nervos fraquejam, o melhor remédio é o trabalho. Costumava então sentar-se à mesa e concentrar-se num pensamento definido. Retirou da pasta vermelha um caderno que continha o resumo de um pequeno trabalho que tencionava realizar durante aquela estada na Crimeia, se acaso se fartasse da inactividade. Sentou-se à mesa pôs-se a trabalhar nesse resumo. Afigurou-se-lhe estar a assumir de novo a sua antiga personalidade calma, resignada, objectiva. Aquele sumário levou-o a especular sobre a vaidade do mundo. Pensou no alto preço que ela exige em troca dos benefícios mais mesquinhos e vulgares concedidos ao homem. Para reger uma cadeira de filosofia antes dos quarenta anos; para ser um vulgar professor; para expor pensamentos comuns, pensamentos estes que já não eram seus,numa linguagem fraca, pesada e cansativa; numa palavra, para atingir a posição de um medíocre letrado, estudara durante quinze anos, trabalhara noite e dia, sofrera uma doença grave, fizera um casamento desastrado, tornara-se culpado de muitas loucuras e injustiças cuja recordação se tornava para ele uma tortura. Kovrin convencia-se agora completamente de que não passava de um medíocre e não conseguia conformar-se com esse facto, sabendo perfeitamente que todos o homem se deve dar por satisfeito com aquilo que é”.
Anton Tchekhov
Dia: 23 de Abril, 2012
Um Caso Médico – Anton Tchekhov
Mas o médico não sabia por onde começar. Como havia de ser? É difícil perguntar aos condenados por que razão os condenaram; e é também aborrecido perguntar aos ricos por que motivos têm necessidade de tanto dinheiro; porque fazem tão mau uso da sua riqueza, porque não a deixam, mesmo quando vêem que aí reside a sua infelicidade… E se se começa a falar disso, a conversação é geralmente embaraçada e longa”.
Anton Tchekhov
A Minha Mulher – Anton Tchekhov
Era inevitável! Não havia em todo o distrito – disso tinha a certeza – mais ninguém capaz de os socorrer senão eu. A mim cumpria-me, pois, fazê-lo. Estava rodeado de pessoas sem instrução, pouco inteligentes, indiferentes, na maioria dente desonesta, ou honesta mas irreflectida, duma leviandade infantil, como era, por exemplo, a minha mulher. Não se podia contar com semelhante gente para nada, mas também não se podiam abandonar os camponeses à sua triste sorte.
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– A revolta alastra entre eles – recomeçou Ivan Ivanitch, chupando uma casca de limão. – Os famintos revoltam-se contra os que têm de comer… E estes irritam-se com os famintos… Sim… Não é este o momento para nos zangarmos, mas para sermos indulgentes. A fome é má conselheira, enloquece os homens, torna-os ferozes, selvagens. A fome não é algo irrisório. Quando voltamos a casa com fome, depois de uma boa caçada, somos capazes de ser insolentes até com a própria mãe… Sim… Um faminto torna-se insolente e rouba; a até pode vir a fazer coisas piores… é necessário que isto se compreenda”.
Anton Tchekhov
Do Amor e Outros Demónios
Conversavam até ao amanhecer, sem ilusões nem mágoas, como um velho casal condenado à rotina. Julgavam ser felizes, e talvez o fossem, até que um dos dois dizia uma palavra a mais ou dava um passo a menos, e a noite estragava-se numa luta de vândalos que desnorteava os mastins”.
Gabriel Garcia Marquez