Porto
O Porto tinha outro encanto aquando pôr-do-sol, eram as cores, os cheiros… não parecia real. Quantas vezes olhava para a margem de Gaia e imaginava os carregamentos de vinho do porto noutros tempos, os barris em cima de costas curvadas, roupas comidas pelos tempo, corpos desgastados. Sempre vi o Porto como uma cidade sofrida, a suportar permanentemente uma dor crónica, por mais lavadas que estivessem as paredes cinzentas ou o sol colorisse as ruas mais escuras e frias… o Porto parece sofrer sempre, com as mesma resignação, com o mesmo tem de ser.
O sofrimento tem paixão, claro que tem! Tem romantismo, melancolia, saudade, emoção. O Porto tem isso tudo mesmo quando está em plena festa, mesmo no S. João há uma alegria sofrida. Como se as gargalhadas despejassem a armagura de muitos dias de solidão, de revolta, de tristeza, de rejeição. O Porto é triste mas encantador. Sofrido mas cheio de garra! Por isso quando entrei naquele barco para não mais voltar levei comigo a cidade dos encantos, do céu azul e das ruas escuras, dos edifícios negros e das árvores vigorosas dos jardins, das praças com pombas, as gaivotas em cima dos semáforos, das margens do Douro com as esplanadas desordenadas e os turistas a passar, das velhinhas de bata que olham pela janela e dos gatos que esgavetam os sacos do lixo. Das ruas que não se deixaram mudar pelo tempo, pelos prédios caídos, humilhados pelo restauro de outros. O Porto é a vida que acontece mas que não passa. Pelas pessoas que se movem sem sair do sítio. Pelo encanto do passado que está sempre presente do futuro.
Não sabia porquê
O chão estava cheio de pó, por mais que o limpasse as manchas amareladas não saíam. Esfregava com todas as minhas forças quando ele chegou, imponente, espaçoso, com a voz grossa que invadia a minha espinha. Ficava arrepiada, com aquele friozinho na barriga e não sabia porquê. Chegava com as mãos sujas que limpava no meu vestido enquanto me arrastava e tocava insaciado, ansioso por me possuir até não poder mais…
Dizia eu que não gostava dele e afinal ele tornou-se tudo para mim, o sol que me fazia levantar da cama, a lua que me ajudava a adormecer, o vento que me fazia mexer, a chuva que me regava e fazia crescer. E amar.
Ele empurrou-me com o olhar. Falávamos assim, com os olhos, com o corpo… as palavras só nos afastavam. Melhor não falar. Apenas olhar, tocar e sentir. E soltar tudo o que há em nós, tudo o que amarramos por medo, por covardia, pelos princípios que nos impediam de tanta coisa. E fazíamos amor como se fosse a última vez, como se fosse a coisa mais importante das nossas vidas. E era.