Gerações

A diferença é pouca, infelizmente. Os nossos pais arranjaram mais depressa emprego e conseguiram cedo construir uma vida estável, mas cresceram na miséria, sem liberdade, dominados por um regime fechado e opressdor.

Nós nascemos e crescemos felizes, com liberdade, conhecimento e comida na mesa. Estudamos mas não temos emprego. Não temos hipótese de construir uma vida estável. Os nossos pais chegam à reforma quase sem nada, porque foram-lhes tirando tudo o que lhes deram. E mais, obrigaram-nos a ajudar-nos no sustento, mesmo que consigamos um cantinho para morar, se vem uma despesa maior lá estamos nós a bater na porta dos papás, e vemos que o era já não é mais.

O que havia já não pode haver mais… e mais duro ainda, é perceber que poucos se safam e os que se safam bem é “à grande e à francesa”. E é partir daqui que pode começar o próximo 25 de Abril, feito por nós e por quem nos ensinou que há valores que valem sempre a pena: os dos nossos pais…

“Tinha as orelhas furadas e a cabeça era feita de papel”

“Tinha as orelhas furadas e a cabeça era feita de papel”

Seria um cavalo e viveria num lindo carrossel… E mais não sei, e mais não consigo dizer para além de que adoro a expressão cabeça de papel porque sinto tantas vezes que tenho a cabeça feita de papel, que fico completamente molhada quando apanho chuva e parece que tenho de fazer uma nova cabeça porque a outra, de papel, ficou desfeita com a chuva e não há calor que a ressuscite…

Ter a cabeça de papel é brincar ao faz-de-conta. é como se fosse Carnaval ou uma festa de crianças. E como eu gosto de ser criança. De brincar às escondidas e aos cabeleireiros. De me desligar do mundo dos adultos e ser eu, com as orelhas furadas, a cabeça de papel, num lindo carrossel…

E a desfalecer descobri a vida

Eu faço qualquer coisa… não sabia o que lhe dizer mais. As palavras estavam esgotadas e lá dentro havia um vazio. Um vazio de vida, de felicidade.  Era a desilusão, a dureza daquilo a que chamam vida e a perspectiva das coisas ainda serem piores do pior que vejo e sinto.

Mas fazia qualquer coisa porque já não tinha nada a perder nem a própria vida. Fui e fiz tudo o que podia fazer. Não foi preciso fazer qualquer coisa. Porque não valia a pena. Era uma rua sem saída e a única coisa a fazer era inversão de marcha e voltar ao ponto em que estava antes de me pôr a dar voltas.

E reparei que ando sempre às voltas embora ache que caminho sempre para a frente. E Talvez caminhe. Mesmo de noite e com luz. E sem precisar ir ao fundo a noite estava bonita e pouco fria. Muito agradável. Apetecia-me ficar por ali, parar nos cafés ou ficar-me pelas esplanadas a beber água com gás. Havia gente e movimento. Apetecia viver e chorar por mais.

Foi assim que descobri que havia mais para além da noite escura, da lua e das estrelas. Havia mais do que pavor das ruas desertas. Havia luz, havia alegria, havia força. A noite afinal era poderosa e cheia de magia. Rendi-me e confessei que se o meu coração ainda funcionasse era bem capaz de me apaixonar pela vida….

Os pedintes dos semáforos

Começou por ser uma mulher de 20, 30 anos, de cara pintadas a fazer malabarismos com umas bolas em frente aos carros parados nos semáforos. achei piada e até dei moeda.

Um mês depois, além da mulher do malabarismo vem outra com um pano e garrafa na mão limpar os vidros dos carros de marca. Felizmente o meu não foi escolhido. E ainda havia uma terceira, que realmente não parecia fazer coisa nenhuma. Fico à espera do próximo episódio ou personagem…

Foi assim que fiquei a gostar do sassi dos semáforos do Campo Alegre. Ele não tem uma perna mas anda de bicicleta. Não é chato a pedir e faz quase sempre o horário da noite. Certinho. Não faz malabarismos nem limpa vidros. É simplesmente um pobre a pedir. E eu sou uma pobre a recusar. Não de espírito. Mesmo pobre de dinheiro.