À tua espera

Alguém está à tua espera. Alguém que te ama muito e não te quer perder. Alguém que te ama demasiado para suportar a tua indiferença ou a tua dor.

Vai, corre por essa estrada, percorre as montanhas, atravessa as pontes, sente o cheiro das flores do monte, ouve o canto dos passarinhos, admira a paisagem das planícies, mergulha nas águas quentes do mar…

Vai, apanha o metro, o comboio e o avião. Voa por entre as nuvens e vê o quão é belo o mundo visto de cima. Deixa o ar entrar nas tuas veias. Deixa-te contagiar pela adrenalina das grandes cidades, admira os monumentos, descobre os museus e a magia da noite.

Ninguém te  pode mostrar o mundo, tens de ser tu a descobrir. Ninguém te pode abrir os olhos, apertar a tua mão. Tens de ser tu. Ninguém te pode agarrar e sentir apenas um dedo.Ninguém pode evitar que vás sem saber se vais voltar. Mas é  assim que os pais amam os filhos. É assim que o amor acontece.

Depois da tua viagem alguém estará à tua espera. No aeroporto a olhar para todos os lados, a ver quando surges com uma mala a acenar. Alguém que te guarda no coração e chora de saudades. Saudades de ter ter por inteiro. Saudades de sentir que não tens de partir, que vais ficar para sempre.

Estou a desejar

Estou a desejar, a sonhar que sou criança e vejo-me através do espelho. Um coração puro e doce, inocente. Os sonhos reais na imaginação.

Não estou a fugir com as minhas bonecas para o sótão. Não estou a desejar que se esqueçam de mim e não me mandem trabalhar. Tenho o sofá azul e o berço de quando era bebé. Pego nas minhas primeiras roupas e faço o meu próprio bebé, que deito no berço e embalo até que adormeça.

Imagino que albergo no sótão quente e sujo famílias inteiras fugidas da guerra. Ali estavam todos seguros. Eu cuidaria de toda a gente.

Na minha solidão era feliz. No meu mundo povoado de personagens eu realizava todos os meus sonhos. E assim fiquei para toda a vida. Presa nas personagens que realizavam os meus sonhos. Longe do mundo real que me oprimia e magoava. Longe das pessoas reais que me assustavam.

Não sei sobreviver de outra forma…