Miséria com descendência

Estavam todos à volta da mesa. Era dia de festa e fartura. Os pratos novos usados para ocasião abrilhantavam as mesas, cobertas pelas toalhas de linho que costumavam ficar guardadas no armário.

Ela falava entusiasmada do seu casamento, das flores e do vestido. Seria o dia mais importante da sua vida. Assim foi desfiando a sua vida e a dos pais, que não tiveram a sorte de fazer festa, sem vestido de noiva porque a mãe estava grávida e era uma vergonha.

Naquele tempo… naquele tempo havia miséria, sobretudo miséria intelectual. Não havia livros, não havia televisão, nem cinema, poucos tinham rádio… o que havia eram os bons costumes que passavam pelas gerações de boca em boca, com a interpretação de cada, por essa houve sempre. O que existe era a pobreza de espírito, a ignorância, a falta de cultura, a fome de conhecimento. Era o fim de mundo que hoje elogiam e falam com saudosismo. Era a miséria, por fora e por dentro.

Dessa miséria nasceram outras misérias, outras ignorâncias, sendo o analfabetismo emocional, afectivo, a maior delas.

Ai se fosse no meu tempo! Se fosse no teu tempo, não tinhas a compreensão dos que te amam, não tinhas a sinceridade do seu afecto, não tinhas quem te estendesse a mão por generosidade. Tinhas a piedade da moral medíocre, tinhas a hipocrisia dos que têm medo do inferno.  E quem sabe se não seriam mais felizes os filhos da ignorância?

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