Vítor Alves por Alice Vieira

ESTAVA EM VISEU, quando um SMS me avisou: “Morreu o Vítor Alves”.

Infelizmente era uma notícia daquelas que se esperam — mas que, no fundo, nunca se esperam. Porque todos os nossos amigos são eternos e, quando descobrimos que não são, temos muita dificuldade em acreditar.

Vítor Alves pertencia àquele grupo de homens a quem devemos viver hoje em liberdade e em democracia. Para as gerações mais novas, isto parece um dado tão adquirido que nem lhes passa pela cabeça que alguma vez pudesse ter sido doutra maneira.

Mas foi. Durante muitos anos.

Até que um dia estes homens decidiram arriscar tudo — vida, liberdade, carreira, saúde, família—em nome de um sonho que, com desvios e loucuras e erros e recuos, ainda é o que hoje nos mantém vivos e actuantes.

Esta é uma dívida que nunca poderemos pagar — nem eles estavam à espera disso.

Mas é muito triste descobrir como as pessoas têm a memória curta.

Foi vergonhosa a maneira como a morte de Vítor Alves foi tratada nos meios de comunicação — já para não falar das muitas horas de um velório quase vazio, quando deveria ter estado SEMPRE, em todas as horas, cheio de gente.

Atirada a notícia para o rodapé dos telejornais — que se enchiam do assassínio de Carlos Castro em Nova Iorque, com direito a um rol de jornalistas em directo, e entrevistas a meio mundo.

Reduzida, num jornal dito de referência, no dia a seguir ao enterro, a uma pequena fotografia em que se via a parte de trás do carro funerário e dois homens a ajudar a colocar o retrato junto do caixão — enquanto páginas inteiras continuavam reservadas ao crime passional de Nova Iorque.

Mas Vítor Alves não se meteu em escândalos, não morreu num hotel de luxo em Nova Iorque, não alimentou crónicas cor-de-rosa, nem sequer pertencia ao jet-set.

Pecados por demais suficientes para o atirar para o limbo dos que não merecem mais que uma breve evocação.

Mas se calhar é aí que ele fica bem — ao lado dos que deram tudo pela pátria, e que a pátria, vergonhosamente, esqueceu.”

Alice Vieira

«JN» de 14 Jan 11

Miséria com descendência

Estavam todos à volta da mesa. Era dia de festa e fartura. Os pratos novos usados para ocasião abrilhantavam as mesas, cobertas pelas toalhas de linho que costumavam ficar guardadas no armário.

Ela falava entusiasmada do seu casamento, das flores e do vestido. Seria o dia mais importante da sua vida. Assim foi desfiando a sua vida e a dos pais, que não tiveram a sorte de fazer festa, sem vestido de noiva porque a mãe estava grávida e era uma vergonha.

Naquele tempo… naquele tempo havia miséria, sobretudo miséria intelectual. Não havia livros, não havia televisão, nem cinema, poucos tinham rádio… o que havia eram os bons costumes que passavam pelas gerações de boca em boca, com a interpretação de cada, por essa houve sempre. O que existe era a pobreza de espírito, a ignorância, a falta de cultura, a fome de conhecimento. Era o fim de mundo que hoje elogiam e falam com saudosismo. Era a miséria, por fora e por dentro.

Dessa miséria nasceram outras misérias, outras ignorâncias, sendo o analfabetismo emocional, afectivo, a maior delas.

Ai se fosse no meu tempo! Se fosse no teu tempo, não tinhas a compreensão dos que te amam, não tinhas a sinceridade do seu afecto, não tinhas quem te estendesse a mão por generosidade. Tinhas a piedade da moral medíocre, tinhas a hipocrisia dos que têm medo do inferno.  E quem sabe se não seriam mais felizes os filhos da ignorância?

O meu lugar

Os cães ladram e o gato mia como um bebé. Arrumei a roupa na mala. Vou-me embora. Ainda não sei para onde mas quero ir, quero sair e esquecer o que ficou para trás. Quero descobrir outros lugares, quero descobrir de onde sou e aonde pertenço. Quero descobrir as minhas raízes, onde posso crescer como uma planta saudável.

Quero que me expliquem como é que foi e como vai ser. Quero sentir-me, por completo. Quero chegar às estrelas e agarrar-me a uma delas. E voar. Sem medo de cair. Quero descobrir o meu lugar e lá ficar para sempre…

O Inverno da vida

Estou farta de reclamar da vida, dos problemas, das coisas que acontecem. Todos os dias começam com a noite e muitos deles não chegam a ver a luz do sol. Viver, mais do que um farto suportável, é um desafio, um acto de coragem. Não basta acordar e adormecer. Não basta meter comida na boca e passar pela casa-de-banho. Não basta respirar.

Viver é deixar-se surpreender pelos encantos e desencantos da vida.Viver é sorrir perante uma boa notícia, por um gesto de generosidade, é soltar gritos de raiva pelas decepções, pelas mágoas, pela dor. Todos os anos, o vento aparece furioso, como se cobrasse alguma injustiça. Assusta-nos, pode magoar-nos. Depois vem a chuva. Depois vem a neve. E um dia virá o sol e o calor em excesso. Tal como a vida é feita de excessos. Tal como nós somos excessivos na alegria e na tristeza.

O tempo pode ser o espelho da vida. O Inverno longo e doloroso. O frio que me imobiliza. A chuva que me prende. O vento que me ameaça, mete medo. O aquecedor é sonho, o conforto de que tudo vai passar e nós podemos fazer o calor, ainda que não seja a mesma coisa. Ainda que ouça as árvores a mexer por causa do vento, ainda que sinta um arrepio cada vez que penso que todos os anos o Inverno chega e fica por muito tempo.