O vapor das locomotivas

De  madrugada, os soldados abriram as portas do lado das vias férreas e empurraram os homens e as mulheres para os vagões sem janelas, pintados em tons de camuflagem. Estava frio e o vapor das locomotivas espalhava-se em nuvens fosforescentes. As crianças agarravam-se às mães e talvez perguntassem: “Para onde vamos? Para onde nos levam?” Os cais, os edifícios da gare e a cidade em redor estavam vazios. Existiam apenas as figuras fantasmáticas dos soldados vestidos com os longos capotes, em pé, de espaço a espaço, sob o vapor dos comboios. Talvez os homens sonhassem fugir, bastaria esquecer as mulheres e as crianças e correr ao longo das vias, saltar os taludes e desaparecer nos campos. A madrugada era interminável e silenciosa, sem gritos nem vozes, sem pássaros nem ladrar de cães, apenas com o resfolegar das locomotivas e o barulho dos atrelados, seguidos do chiar agudo das rodas quando começaram a patinar nos carris e o comboio partiu para aquela viagem sem destino.”

J. M. G. Le Clézio, em Estrela Errante

Está calor e é normal. Tudo começa a ser normal à medida em que envelhecemos

Perde-se a esperança, as ilusões foram-se com a ingenuidade e a felicidade parece ridícula neste mundo. O mundo, onde apesar de tudo, há espaço para sorrir, para alguns prazeres e mimos.

Basta fechar os olhos e esquecer as dores, as mágoas e desilusões… tentar sonhar com pequenas coisas, com uma comida saborosa, um abraço apertado ou um gelado numa tarde de Verão… É a vida a passar!

Nada mais podia ter importância

Aqui, neste compartimento, nada mais podia ter importância, nada mais podia ser ameaçador, nem a morte de Mario, nem os alemães prestes a subirem o vale com os seus carros blindados, nem mesmo o vulto do pai que ia para a montanha, de madrugada, que desaparecia por entre as ervas como alguém que mergulha na morte.”

J. M. G. Le Clézio, em “Estrela Errante”