O desaparecimento do galo solitário

Não se sabe como foi lá parar, mas todos se lembram de o ouvir. O galo cantava de madrugava e despertava os habitantes vizinhos da Rua Miguel Bombarda, no Porto. De tanto o ouirvem que o quiseram ver  e deixar-se surpreender. O galo vivia nas traseiras de um prédio, sózinho, num jardim maltratado, onde apenas cresciam ervas, que com o tempo esconderam o galo, de tão grandes que estavam.

Muitos questionavam o porquê daquela cena, um galo a viver só, entre ervas selvagens, no meio de um bairro urbano. Era triste ver o galo assim. Nem uma gaivota paráva perto dele para lhe fazer companhia e também não havia sinais de vida humana naquele espaço, que até aparentava alguma modernidade. Galinhas, nem vê-las…

Há algumas semanas que não se ouve o galo. Tentou-se encontrá-lo no meio das ervas já enormes, mas nada. Há quem diga ter visto uma mancha vermelha, da cor da crista do galo e ache que ele morreu à fome, sendo agora um cadáver em decomposição.

“Não pode ser”, insistia outro vizinho. Por que razão o iriam abandonar e deixá-lo morrer com tamanha crueldade. A maioria era da opinião de que o galo já era, tendo um final glorioso num churrasco animado e delicioso. No entanto, ninguém vira o galo a ser apanhado e decapitado em momento algum. Daí o espanto ser unânime. Como terá morrido o galo? Se é que morreu… ou como poderá ter sobrevivido?

Itália

Pessoal, Itália foi muito fixe, mas vamos lá ver umas coisinhas, eles não sabem fazer água potável nem coca-cola como deve ser. Ok, as pizzas são mais saborosas e a comida até não é má. Mas eles não fazem ideia de como se conduz um automóvel, só sabem onde fica o acelerador e pouco mais. Sim, também tem umas paisagens maravilhosas, lindas, românticas, etc, etc… O leite e o café são saborosos mas aquele Vicente a dizer “non é possibile” mostra que lá também há gente que não é assim simpática e se calhar nem sabe sorrir. Outra coisa, um Verão com aquele calor não lembra nem a S. Pedro que, por acaso, morreu em Itália porque o mataram legalmente.

Além dos gelados e do granita (é assim que se chama aquela bebida de gelo?), há uma coisa que jamais vou esquecer: as pessoas enchem as salas para ouvir música não pimba/dita erudita, estão caladas durante os concertos, batem palmas e ainda dão gorjetas! Viva Italia!

Gansolino e Gansolina

A foto foi tirada no Inverno, num dia de chuva. O Gansolino e a Gansolina viviam sozinhos numa grande gaiola. Hoje é Verão, apesar de ontem ter chovido. Mas o casal Gansolínico já não vive só, nem se deu ao luxo da procriação. Vivem agora com um galo, que mais tarde mostrarei numa nova foto.

Nem os animais devem gostar de solidão… 

A dignidade das mulheres

FRIEDRICH SCHILLER andou por cá há mais de duzentos anos. Parece-nos antigo, todavia conseguia ver além do seu tempo… Gosto particularmente deste verso (embora admita outras verdades): “[mulheres] Mais propensas que o homem à sabedoria”.

A versão completa:

“Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem

Rosas sublimes na vida terrena,

Entrançam do amor o venturoso laço

E, através do véu casto das Graças,

Alimentam, vigilantes, o fogo eterno

De sentimentos mais belos, com mão sagrada.

 

Nos limites eternos da Verdade, o homem

Vagueia sem cessar, na sua rebeldia,

Impelido por pensamentos inquietos,

Precipita-se no oceano da sua fantasia.

Com avidez agarra o longe,

Seu coração jamais conhece a calma,

Incessante, em estrelas distantes,

Busca a imagem do seu sonho.

 

Mas, com olhares de encanto e fascínio,

As mulheres chamam a si o fugitivo,

Trazendo-o a mais avisados caminhos.

Na mais modesta cabana materna

Foram deixadas, com modos mais brandos,

As filhas fiéis da Natureza piedosa.

 

Adverso é o esforço do homem,

Com força desmesurada,

Sem paragem nem descanso,

Atravessa o rebelde a sua vida.

Logo destrói tudo o que alcança;

Jamais termina o seu desejo de luta.

Jamais, como cabeça da Hidra,

Eternamente cai e se renova.

 

Mas, felizes, entre mais calmos rumores,

Irrompem as mulheres, num instante de flores,

Propiciando zelo e cuidadoso amor,

Mais livres, no seu concertado agir,

Mais propensas que o homem à sabedoria

E ao círculo infindável da poesia.

 

Severo, orgulhoso, autárcico,

O peito frio do homem não conhece

Efusivo coração que a outro se ajuste,

Nem o amor, deleite dos deuses,

Das almas desconhece a permuta,

Às lágrimas não se entrega nunca,

A própria luta pela vida tempera

Com mais rudeza ainda a sua força.

 

Mas, como que tocada ao de leve pelo Zéfiro,

Célere, a harpa eólica estremece,

Tal é a alma sensível da mulher.

Com angustiada ternura, perante o sofrimento,

O seu seio amoroso vibra, nos seus olhos

Brilham pérolas de orvalho sublime.

 

Nos reinos do poder masculino,

Vence, por direito, a força,

Pela espada se impõe o cita

E escravo se torna o persa,

Esgrimem-se entre si, em fúria,

Ambições selvagens, rudes,

E a voz rouca de Éris domina,

Quando a Cárite se põe em fuga.

 

Porém, com modos brandos e persuasivos,

As mulheres conduzem o ceptro dos costumes,

Acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,

Às forças hostis que se odeiam

Ensinam a maneira de ser harmoniosa,

E reúnem o que no eterno se derrama.”

 

Friedrich Schiller