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Gente que vota

“Um amigo meu comprou um frigorífico novo e para se livrar do velho,
colocou-o em frente do prédio, no passeio, com o aviso: “Grátis e a
funcionar. Se quiser, pode levar”. O frigorífico ficou três dias no
passeio sem receber um olhar dos passantes. Ele chegou à conclusão que
as pessoas não acreditavam na oferta. Parecia bom de mais para ser
verdade e mudou o aviso: “Frigorífico à venda por 50,00 ?. No dia
seguinte, tinha sido roubado! Cuidado! Este tipo de gente vota!

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Ao visitar uma casa para alugar, o meu irmão perguntou à agente
imobiliária para que lado era o Norte, porque não queria que o sol o
acordasse todas as manhãs. A agente perguntou: “O sol nasce no Norte?”
Quando o meu irmão lhe explicou que o sol nasce a Nascente (aliás, daí
o nome e que há muito tempo que isso acontece!) ela disse: “Eu não
estou actualizada a respeito destes assuntos”. Ela também vota

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Trabalhei uns anos num centro de atendimento a clientes em Ponta
Delgada – Açores. Um dia, recebi um telefonema de um sujeito que
perguntou em que horário o centro de atendimento estava aberto.  Eu
respondi: “O número que o senhor discou está disponível 24 horas por
dia, 7 dias por semana.” Ele então perguntou: “Pelo horário de Lisboa
ou pelo horário de Ponta Delgada?” Para acabar logo com o assunto,
respondi: “Horário do Brasil.” Ele vota!

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Um colega e eu estávamos a almoçar no self-service da empresa, quando
ouvimos uma das assistentes administrativas falar a respeito das
queimaduras de sol que ela tinha, por ter ido de carro para o litoral.
Estava num descapotável, por isso, “não pensou que ficasse queimada,
pois o carro estava em movimento.” Ela também vota!

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A minha cunhada tem uma ferramenta salva-vidas no carro, para cortar o
cinto de segurança, se ela ficar presa nele. Ela guarda a ferramenta
no porta-bagagens! A minha cunhada também vota!

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À espera de ser atendido numa pizzaria observei um homem a pedir uma
pizza para levar. Ele estava sozinho e o empregado perguntou se ele
preferia que a pizza fosse cortada em 4 pedaços ou em 6. Ele pensou
algum tempo, antes de responder: “Corte em 4 pedaços; acho que não
estou com fome suficiente para comer 6 pedaços.” Isso mesmo, ele
também vota!”

Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida – mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.


Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.


Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne,
saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!”

 

João Pereira Coutinho

Pobres dos nossos ricos

A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (…)”

MIA COUTO

Figuras da mania

Elas andam à solta, por todo o lado, não nos perseguem mas esbarram no nosso caminho. Tocam-nos com luvas de película, limpam os pés na nossa roupa, vomitam o nosso banquete e cospem o nosso vinho e rogam-nos pragas enquanto nos sorriem.

Empurram-nos e fingem que nos estendem a mão. Uma mão de pele e osso, vazia, regada pela acidez de um coração de vinagre. Não sei que sangue corre naquelas veias geladas. Sei que as palavras sabem fel, queimam de tão geladas que são. Com um molho salgado que as tornam ainda mais intoleráveis.

Amargas talvez não. Fantasiosas, seria elogioso. Amargas para quem ouve sim, mas simpáticas para quem as diz, quem vê o mundo por um lupa e muda-a de lugar quando esbarra em algo que não gosta, que não ilumine o mundo perfeito de poder, dinheiro e beleza de fornada.

Só me incomoda ver estragada a paisagem de um belo e alegre dia com figuras que insistem em dizer-nos que o mundo é delas, que só elas na sua mequinhez podem ter o que querem, que só elas são merecedoras da fama que odiamos.

O inferno

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modo para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar”.

Italo Calvino, em  “As Cidades Invisíveis”

O regime faliu

Acho, sinceramente, que o regime acabou, faliu. E não sabemos bem como lidar com isso nem com um regime que é cada vez menos democrático: o poder político – verdadeirtamente eleito e sobre o qual o povo tem um controlo mais directo e efectivo – está cada vez mais fraco e fragmentado. (…) Hoje a capacidade do poder eleito para decidir o andamento e a evolução da sociedade é muito menor do que no passado. Quem exerce efectivamente o poder? Ninguém em abstracto, e muitos nas suas esferas de intervenção.”

Rui Rio, na Revista Sábado de 28 de Maio de 2009

A tudo se habitua o homem, a todo o estado se afaz; e não há vida, por mais estranha, que o tempo e a repetição dos actos lhe não faça natural”.

Almeida Garrett

Uma das coisas que me parece jamais aceitar, é pagar para ir a uma casa-de-banho, mesmo que seja só para fazer chichi. Pagar por pagar deviam criar tarifários diferentes de acordo com aquilo que se vai fazer à casa-de-banho.

Na estação de Santa Apolónia, em Lisboa, um local público frequentado por muito boa gente que não possui um jacto privado ou dinheiro em abundância para preferir o transporte aéreo, paga-se para ir à casa-de-banho. Se estiver com diarreia pode gastar um euro ou mais numa casa-de-banho para se libertar de uma necessidade natural e urgente.

Se não tiver dinheiro adequado, procure o multibanco mais próximo, depois vá destrocar numa loja próxima a nota mais baixa e veja se aguenta porque se não tiver a moeda de 20 cêntimos (não dá troco nem aceita cartão de crédito ou multibanco, cheque muito menos) vai-se ver bem aflito. E então se estiver com diarreia, resta-me desejar-lhe toda a sorte do mundo…

E não vale a pena fazer batota porque existe uma câmara de vídeo na casa-de-banho e as senhoras da limpeza são rigorosas na vigilância: “tem de pagar!”imagem-103

Viver em Portugal nem sempre é agradável. Às vezes falta o ar puro das montanhas, o verde dos campos, os monumentos lindos das cidades, aquele cheiro a gente simples…

Estou a queixar-me deste cantinho pacato mas acredito que na maior parte dos países do mundo deve ser bem pior!

Ter de assentar numa urgência de hospital é das coisas piores que pode acontecer a um cidadão deste país. Primeiro porque se vamos a uma urgência é porque nos dói alguma coisa, logo não é de todo uma situação agradável. Depois… convém não estar o suficiente mal que não consigo falar, ler ou ver a televisão sintonizada na RTP1. Se não arranjar maneira de se distrair está tramado. Esperam-nos horas de paciência. No minimo espera duas horas para ser atendido.

 Depois de entrar pode continuar a espera. Se tiver de fazer uma simples análise tem de esperar pela enfermeira que fará o serviço e que nesse momento está atarefada com quilos de trabalho, excessivos para uma só pessoa.

Depois reze para que o médico esteja disponível para ver o resultado da análise e, finalmente, o medicar. O médico pode estar a fazer dois serviços, atendimento e internamento, se for de madrugada. Daí que no momento em que precisa dele, ele estará a tratar dos doentes do internamento.

Falo, claro de um hospital pequeno, como, por exemplo, o Hospital de Barcelos. Mas num hospital central como o Sto. António no Porto, a sorte pode não ser muito melhor. O médico espanhol está de serviço há treze horas, parou apenas meia-hora para almoçar, e embora seja simpático não consegue esconder o cansaço excessivo.

Depois de quatro horas na urgência, carimba a receita e, se for madrugada, tem de procurar uma farmácia de serviço que pode não ficar perto de casa. Tenha a sorte, o privilégio de ter carro e não estar sózinha. Por estas e por outras, acho que deviam extinguir as doenças. É melhor trabalhar do que ficar doente, pior, do que ter de precisar da urgência de um hospital.

O dia Não

Hoje não quero meter conversa com ninguém. Quero ficar no meu canto, enrolada nos cobertores, com o aquecedor ligado e uma música de fundo. Quero desligar os telefones e esquecer os compromissos. Quero não cozinhar nem lavar o montão de louça que me espera na pia. Quero fechar os olhos à desarrumação do meu quarto e ignorar o sermão que a minha mãe me diria se entrasse agora aqui.

Não quero falar com ninguém, nem comigo. Desligar o cérebro, apagar as emoções, ser hoje uma máquina, sem humanidade, encostada no canto.

Amanhã ou depois voltaria a ser eu, voltaria ao mundo, como se nunca me tivesse ocorrido não ver nem falar com ninguém.

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