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Figuras da mania

Elas andam à solta, por todo o lado, não nos perseguem mas esbarram no nosso caminho. Tocam-nos com luvas de película, limpam os pés na nossa roupa, vomitam o nosso banquete e cospem o nosso vinho e rogam-nos pragas enquanto nos sorriem.

Empurram-nos e fingem que nos estendem a mão. Uma mão de pele e osso, vazia, regada pela acidez de um coração de vinagre. Não sei que sangue corre naquelas veias geladas. Sei que as palavras sabem fel, queimam de tão geladas que são. Com um molho salgado que as tornam ainda mais intoleráveis.

Amargas talvez não. Fantasiosas, seria elogioso. Amargas para quem ouve sim, mas simpáticas para quem as diz, quem vê o mundo por um lupa e muda-a de lugar quando esbarra em algo que não gosta, que não ilumine o mundo perfeito de poder, dinheiro e beleza de fornada.

Só me incomoda ver estragada a paisagem de um belo e alegre dia com figuras que insistem em dizer-nos que o mundo é delas, que só elas na sua mequinhez podem ter o que querem, que só elas são merecedoras da fama que odiamos.

O inferno

“O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modo para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar”.

 

Italo Calvino, em  “As Cidades Invisíveis”

O regime faliu

“Acho, sinceramente, que o regime acabou, faliu. E não sabemos bem como lidar com isso nem com um regime que é cada vez menos democrático: o poder político – verdadeirtamente eleito e sobre o qual o povo tem um controlo mais directo e efectivo – está cada vez mais fraco e fragmentado. (…) Hoje a capacidade do poder eleito para decidir o andamento e a evolução da sociedade é muito menor do que no passado. Quem exerce efectivamente o poder? Ninguém em abstracto, e muitos nas suas esferas de intervenção.”

Rui Rio, na Revista Sábado de 28 de Maio de 2009

“A tudo se habitua o homem, a todo o estado se afaz; e não há vida, por mais estranha, que o tempo e a repetição dos actos lhe não faça natural”.

Almeida Garrett

Uma das coisas que me parece jamais aceitar, é pagar para ir a uma casa-de-banho, mesmo que seja só para fazer chichi. Pagar por pagar deviam criar tarifários diferentes de acordo com aquilo que se vai fazer à casa-de-banho.

Na estação de Santa Apolónia, em Lisboa, um local público frequentado por muito boa gente que não possui um jacto privado ou dinheiro em abundância para preferir o transporte aéreo, paga-se para ir à casa-de-banho. Se estiver com diarreia pode gastar um euro ou mais numa casa-de-banho para se libertar de uma necessidade natural e urgente.

Se não tiver dinheiro adequado, procure o multibanco mais próximo, depois vá destrocar numa loja próxima a nota mais baixa e veja se aguenta porque se não tiver a moeda de 20 cêntimos (não dá troco nem aceita cartão de crédito ou multibanco, cheque muito menos) vai-se ver bem aflito. E então se estiver com diarreia, resta-me desejar-lhe toda a sorte do mundo…

E não vale a pena fazer batota porque existe uma câmara de vídeo na casa-de-banho e as senhoras da limpeza são rigorosas na vigilância: “tem de pagar!”imagem-103

Viver em Portugal nem sempre é agradável. Às vezes falta o ar puro das montanhas, o verde dos campos, os monumentos lindos das cidades, aquele cheiro a gente simples…

Estou a queixar-me deste cantinho pacato mas acredito que na maior parte dos países do mundo deve ser bem pior!

Ter de assentar numa urgência de hospital é das coisas piores que pode acontecer a um cidadão deste país. Primeiro porque se vamos a uma urgência é porque nos dói alguma coisa, logo não é de todo uma situação agradável. Depois… convém não estar o suficiente mal que não consigo falar, ler ou ver a televisão sintonizada na RTP1. Se não arranjar maneira de se distrair está tramado. Esperam-nos horas de paciência. No minimo espera duas horas para ser atendido.

 Depois de entrar pode continuar a espera. Se tiver de fazer uma simples análise tem de esperar pela enfermeira que fará o serviço e que nesse momento está atarefada com quilos de trabalho, excessivos para uma só pessoa.

Depois reze para que o médico esteja disponível para ver o resultado da análise e, finalmente, o medicar. O médico pode estar a fazer dois serviços, atendimento e internamento, se for de madrugada. Daí que no momento em que precisa dele, ele estará a tratar dos doentes do internamento.

Falo, claro de um hospital pequeno, como, por exemplo, o Hospital de Barcelos. Mas num hospital central como o Sto. António no Porto, a sorte pode não ser muito melhor. O médico espanhol está de serviço há treze horas, parou apenas meia-hora para almoçar, e embora seja simpático não consegue esconder o cansaço excessivo.

Depois de quatro horas na urgência, carimba a receita e, se for madrugada, tem de procurar uma farmácia de serviço que pode não ficar perto de casa. Tenha a sorte, o privilégio de ter carro e não estar sózinha. Por estas e por outras, acho que deviam extinguir as doenças. É melhor trabalhar do que ficar doente, pior, do que ter de precisar da urgência de um hospital.

O dia Não

Hoje não quero meter conversa com ninguém. Quero ficar no meu canto, enrolada nos cobertores, com o aquecedor ligado e uma música de fundo. Quero desligar os telefones e esquecer os compromissos. Quero não cozinhar nem lavar o montão de louça que me espera na pia. Quero fechar os olhos à desarrumação do meu quarto e ignorar o sermão que a minha mãe me diria se entrasse agora aqui.

Não quero falar com ninguém, nem comigo. Desligar o cérebro, apagar as emoções, ser hoje uma máquina, sem humanidade, encostada no canto.

Amanhã ou depois voltaria a ser eu, voltaria ao mundo, como se nunca me tivesse ocorrido não ver nem falar com ninguém.

Verdade verdadeira

«Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.»

Eça de Queiróz

Meter conversa

Lembrei-me de falar do frio para meter conversa. É um tema universal, toda a gente tem algo a dizer sobre o frio e às vezes até se têm longas discussões sobre o estado do tempo, as vantagens, as consequências, os problemas… Até com os estranhos podemos falar sobre o frio e acabamos sempre com as frase que deixa qualquer um sem palavras: “É a vida”. Se fosse a morte não estariamos aqui a ter esta conversa. Mas quando falece alguém bem que poderiamos dizer: “É a morte” ou “É a consequência da vida”.

No Natal acontece a mesma coisa. É fácil meter conversa: as prendas e o bacalhau. Há quem fale do Pai Natal, pessoalmente prefiro coisas reais, há mais para dizer. Há também quem prefira a solidão por prazer. Até consigo compreender. Mais do que o frio ou a chuva. Embora respeite a Natureza.

A falta de respeito é uma coisa feia. Desagradável. Uma pessoa acorda bem disposta a sorrir para a vida e leva, de repente, com uma falta de respeito na cara. Isso não se faz. Podiam mandar uma sms: hoje não vás pela VCI, vais ser ultrapassada pela direita, no exacto momento em que te preparavas para sair na saída. Não foi no rosto, mas não deixa de ser desagradável.

Também é não é agradável falar com embriagados em estado avançado. Não pelo não dizem e insistem em querer dizer, mas por não se perceber a articualção daquilo que deveriam ser palavras. É pena não conseguir conversar com bêbados avançados. Eles são verdadeiros, capazes de dizer tudo, tudinho, só que não sai pela boca, fica lá dentro ou sai pelo vómito.

Realmente, este texto é enjoativo, seca… Esta tentativa de meter conversa não foi muito feliz. Vou meditar sobre a necessidade de meter conversa. Volto já.

“Estava eu a ver TV numa tarde de domingo, naquele horário em que não se pode inventar nada para fazer, pois no outro dia é segunda-feira, quando a minha esposa se deitou ao meu lado e começou a brincar com minhas ‘partes’.

Após alguns minutos ela teve a seguinte ideia:
 
- Por que é que não me deixas depilar os teus ‘ovinhos’, pois assim eu poderia fazer ‘outras coisas’ com eles.

Aquela frase foi igual a um sino na minha cabeça. Por alguns segundos imaginei o que seriam ‘outras coisas’. Respondi que não, que doeria coisa e tal, mas ela veio com argumentos sobre as novas técnicas de depilação e eu a imaginar as ‘outras coisas’, não tive argumentos para negar e concordei.

Ela pediu-me que me pusesse nu enquanto ia buscar os equipamentos necessários para tal feito. Fiquei a ver TV, porém a minha imaginação vagueava pelas novas sensações que sentiria e só despertei quando ouvi o beep do microondas.
 
Ela voltou ao quarto com um pote de cera, uma espátula e alguns pedaços de plástico. Achei estranhos aqueles equipamentos, mas ela estava com um ar de ‘dona da situação’ que deixaria qualquer médico urologista sentir-se um principiante.
 
Fiquei tranquilo e autorizei o restante processo. Pediu-me para que eu ficasse numa posição de quase-frango-assado e libertasse o aceso à zona do tomatal.
 
Pegou nos meus ovinhos como quem pega em duas bolinhas de porcelana e começou a espalhar a cera morna. Achei aquela sensação maravilhosa! O Sr. ‘tolas’ já estava todo ‘pimpão’ como quem diz: ‘Sou o próximo da fila!’

Pelo início, imaginei quais seriam as ‘outras coisas’ que aí viriam. Após estarem completamente besuntados de cera, ela embrulhou-os no plástico com tanto cuidado que eu achei que ia levá-los de viagem. Tentei imaginar onde é que ela teria aprendido essa técnica de prazer: Na Tailândia, na China ou pela Internet?

Porém, alguns segundos depois ela esticou o ’saquinho’ para um lado e deu um puxão repentino. Todas as novas sensações foram trocadas por um sonoro ‘A PU….’
Olhei para o plástico para ver se a pele do meu tin-tin não tinha vindo agarrada. Ela disse-me que ainda restavam alguns pelinhos, e que precisava repetir o processo. Respondi prontamente: Se depender de mim eles vão ficar aí para a eternidade!

Segurei o Sr. Esquerdo e o Sr. Direito nas minhas respectivas mãos, como quem segura os últimos ovos da mais bela ave amazónica em extinção, e fui para a banheira. Sentia o coração bater nas ‘pendurezas’.

Abri o chuveiro e foi a primeira vez na minha vida que molhei a salada antes de molhar a cabeça. Passei alguns minutos deixando a água gelada escorrer pelo meu corpo. Saí do banho, mas nestes momentos de dor qualquer homem se torna num bebezinho: faz merda atrás de merda. Peguei no meu gel pós barba com camomila ‘que acalma a pele’, besuntei as mãos e passei nos ‘tomates’.

Foi como se tivesse passado molho de piri-piri. Sentei-me no bidé na posição de ‘lavagem checa’ e deixei a água acalmar os ditos. Peguei na toalha de rosto e abanei os ‘ditos’ como quem abana um pugilista após o 10° round.

Olhei para meu ‘júnior’, coitado, tão alegrezinho uns minutos atrás, e agora estava tão pequeno que mais parecia o irmão gémeo de meu umbigo.

Nesse momento a minha esposa bate à porta da casa de banho e perguntou-me se eu estava bem. Aquela voz antes tão aveludada e sedutora ficou igual a uma gralha. Saí da casa de banho e voltei para o quarto. Ela argumentava que os pentelhos tinham saído pelas raízes, que demorariam a voltar a crescer. Pela espessura da pele do meu tin-tin, aqui não vai nascer nem sequer uma penugem, disse-lhe.

Ela pediu-me para ver como estavam. Eu disse-lhe para olhar mas com meio metro de intervalo e sem tocar em nada, acrescentando que se lhe der para rir ainda vai levar PORRADA!!

Vesti a t-shirt e fui dormir, sem cuecas. Naquele momento sexo para mim nem para perpetuar a espécie humana.

No outro dia de manhã, arranjei-me para ir trabalhar. Os ‘ovos’ estavam mais calmos, porém mais vermelhos que tomates maduros. Foi estranho sentir o vento bater em lugares nunca d’antes soprados.

Tentei vestir as boxers, mas nada feito. Procurei algumas mais macias e nada. Vesti as calças mais largas que tenho e fui trabalhar sem nada por baixo.

Entrei na minha secção com um andar igual ao de um cowboy cagado. Disse bom dia a todos, mas sem os olhar nos olhos, e passei o dia inteiro trabalhando de pé, com receio de encostar os tomates maduros em qualquer superfície.

Resultado, certas coisas só devem ser feitas pelas mulheres. Não adianta nada tentar misturar os universos masculino e feminino”.

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